Aceitação e a Síndrome de Gabriela


Nossa mente tem as mais variadas formas de defesa


 

Mariana Benedito*

 

Aceitar o que é. Aceitar que as coisas são como precisam ser. Aceitar que tudo acontece como precisa acontecer. Pensamentos que validam a ideia de que existe algo maior que nos rege, nos orienta. Independente da crença que assumamos, o entendimento de que há uma energia que mantém o controle, a ordem e o perfeito andamento das coisas vai muito além da perspectiva religiosa, é Física! A Física Quântica nos diz que existe um lugar que é pura energia, onde todas as coisas têm início, que é a origem das estrelas, das rochas, do DNA, da vida, de tudo o que existe e que simplesmente é. Uma energia que conecta toda a criação. Esse rodeio todo é para te mostrar, amado leitor, que há uma energia maior que tem o controle sobre todas as coisas e, daí, vem a ideia da aceitação.

Mas existe uma grande diferença entre aceitação e conformismo. Aceitar o que é e que as coisas são como são não pode – e nem deve – ser gatilho para a falta de atitude. Para a inércia. Para se manter na zona de conforto. Nossa mente tem as mais variadas formas de defesa para nos manter onde estamos, da forma que estamos. Até porque o ego trabalhou arduamente ao longo de toda uma vida mandando para o inconsciente toda a dor, repressão, falta, com o objetivo de nos manter equilibrados o suficiente para que seguíssemos em frente, sentindo o menor nível de incômodo possível, conscientemente; e, para isso, fez curvas, desvios, rodopios que são os chamados mecanismos de defesa. E aí, como que num passe de mágica, nós despertamos e queremos pegar um caminho diferente daquele que o ego nos traçou: sair da redoma e da zona de conforto para encarar todos os desconfortos – parece óbvio, mas na prática é bem mais complicado – e incômodos que o ego lutou tanto para nos proteger, com o intuito de ganhar consciência dos padrões que carregamos. Lógico que o ego vai gritar dizendo que estamos caindo numa verdadeira esparrela! Afinal, estamos desfazendo seu trabalho.

É exatamente neste ponto que surgem as resistências às mudanças. Resistir ao novo é se apegar firmemente àquilo que nos é posto como único caminho. É um grande medo de perder o controle, até porque só dominamos o que conhecemos. O desconhecido, o novo, a mudança nos traz perspectivas inimagináveis, infinitas possibilidades que não estão à mercê do nosso controle. Nós é que estamos delas. Resistir à mudança é não saber lidar com o que virá: é mais seguro se manter no que já é conhecido, mesmo que já não seja mais confortável. E é aí que entra a Síndrome de Gabriela. Eu nasci assim. Eu cresci assim. E sou mesmo assim. Nasci desse jeito e cheguei onde cheguei sendo desse jeito, para quê mudar? Ou ainda mais profundamente, não há o quê mudar.

Porém, todavia, entretanto, tudo a que nós resistimos, persiste. Já dizia o bom e velho Carl Jung. E isso pode ser traduzido da seguinte maneira: todos nós – sem exceção à regra – temos conteúdos inconscientes de carências, lacunas, sensações de desafeto, pesos e cargas emocionais que vamos trazendo ao longo da vida e que reverberam na maneira como agimos, como nos relacionamos, como vemos e enxergamos o mundo. Daí fica fácil acompanhar o raciocínio: se temos todos esses conteúdos baseados na falta, como serão as relações que desenvolveremos? Baseadas, idem, na falta. Se ganhamos consciência desses aspectos e desejamos identificar e entender de que forma a nossa mente trabalha e qual foi toda a construção do ego que falamos mais acima, o único movimento possível que virá como consequência é a mudança. Não é porque agimos de uma determinada forma – ou fomos educados para – que não podemos, a partir de agora, começar a agir de outra mais consciente, melhorada, evoluída.

A evolução do mundo e de todas as coisas se deu por meio de melhorias. E não é diferente com cada um de nós. Qual seria o sentido de estarmos aqui, geração após geração, se fôssemos somente repetir os padrões, os pensamentos num grande eco sem fim? Estamos aqui para ser voz, e não eco.

Aceitar que as coisas são como são e como precisam ser não significa assumir uma postura passiva. Não significa sermos de uma determinada forma porque tínhamos que ser dessa forma e não buscarmos nos melhorar.

Por nós. A melhoria nas relações vem como consequência natural.

Não tem como ser diferente. Vai por mim!

 

* – Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com