Artigo Mariana Benedito – Coloca a frustração na sua dieta


"avalie quão desconfortável é viver se obrigando a estar num ritmo diferente do nosso"


 

Sim, meu amado leitor. É este mesmo o título desta coluna e é sobre a importância da frustração que vamos falar aqui hoje. Isso, ela mesma. Aquela criaturinha que evitamos a passos largos porque, muitas vezes, quando ela chega, traz na sua bagagem a tristeza, a baixa estima, a desesperança e até mesmo a raiva. Mas, creia, a frustração é fundamental no processo de autoconhecimento e despertar para uma melhor versão de nós mesmos.

Vamos conversar sobre a frustração a partir de dois pontos. O primeiro de permitir-se frustrar para entendermos nossos limites e, depois, frustrar os outros para nós colocarmos os nossos limites nas relações. Vamos com calma, por partes. Pega na minha mão e vamos. Repare, para uma criança ser educada e compreender o sentido de leis, regras e deveres, ela precisa ouvir “não”, precisa ser frustrada em seus desejos. Nós, na vida adulta, ainda seguimos precisando da frustração para entender o que nos cabe, qual caminho tomamos e quais escolhas fazemos. A frustração é um guia. Quando fazemos aquele plano bem elaborado, cheio de roteiros e diretrizes e, por alguma razão, algo não sai como desejamos e nos sentimos decepcionados e frustrados, compreendemos que aquele caminho não é o melhor ou que, ao menos, não é a hora certa de seguir adiante e botamos o pé no freio, reorganizamos as velas e tocamos o barco com mais consciência e presença.

Agora, quando falamos sobre a importância de frustrar o outro, é sobre nos dar a permissão de não corresponder às expectativas alheias. Somos todos diferentes, temos desejos, necessidades, impulsos diferentes; em algum momento dessa jornada neste planeta chamado Terra, teremos que ser contrários ao que esperam de nós. Nossos pais idealizaram uma imagem de nós, nossos amigos idem, pessoas com quem nos relacionamos idem parte dois; mas é impossível viver sem frustrar alguém. Em algum momento precisamos viver de acordo com o que acreditamos, seguir o caminho que escolhemos e assumirmos nossa verdade. Dizer “não” para o outro, e “sim” para nós. Colocarmos os limites do que gostamos, queremos e aceitamos para o outro.

Lógico e obviamente, ninguém gosta de ser frustrado. E, para colocar uma pitada a mais de tempero nesse molho, a sensação que temos ao dizer “não”, colocar limites e frustrar o outro diante das expectativas que colocam sobre nós, é de que estamos decepcionando, perdendo o amor e o afeto. Mas, meu amado ser, avalie quão desconfortável é viver se obrigando a estar num ritmo diferente do nosso, a fazer coisas que não nos trazem completude e parecer que existe sempre um vazio que nada preenche.

É preciso se permitir dizer “não” e frustrar alguém. Assumir as rédeas da nossa vida e o nosso bem-estar emocional, mental e psíquico. É preciso entender que a frustração faz parte da caminhada do autoconhecimento, da auto-observação, nos permite seguir o caminho que desejamos, aquele onde nosso coração vibra, entendendo quais as diretrizes e melhores tomadas de decisão.

Precisamos nos permitir não atender às expectativas alheias quando isso nos traz conforto e saúde emocional; é necessário cortar ideais que constroem sobre nós quando estes nos aprisionam e sufocam.

A frustração é necessária, é parte fundamental na construção e afirmação de nós mesmos. Permita-se.

 

– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica;

E-mail: mari.benedito@outlook.com