Caçadores de nós mesmos


"Quando somos crianças, temos uma essência, um centro autêntico, puro e altamente verdadeiro".


Hoje eu vou escrever esta coluna de maneira diferente, amado leitor. Te convido a fazer uma viagem junto comigo pela música “Caçador de mim”, de Milton Nascimento. Confesso que sempre fui fascinada por essa música, desde muito nova; sempre que ouvia sentia uma força, uma garra, um instinto de vida! Mas algo me chamava a atenção para além disso; porém, eu ainda não havia conseguido identificar. E aí, depois que cresci, amadureci, comecei a desbravar essa maravilha que é a Psicanálise e a mente humana, a entender os processos que passamos nessa jornada de autoconhecimento, autoanálise, análise terapêutica e todo esse contexto de se autodescobrir … ah, aí sim esse primor da música popular brasileira fez todo o sentido! Pelo menos, para mim. E, hoje, compartilho com você, que está aí do outro lado, as minhas percepções, reflexões. Espero que goste! Bora?
Então, começamos por “Por tanto amor, por tanta emoção a vida me fez assim: doce ou atroz, manso ou feroz”. Quando somos crianças, temos uma essência, um centro autêntico, puro e altamente verdadeiro. Somos absolutamente espontâneos, inocentes, não sentimos medo de demonstrar emoções, vontades, sensações, medos, alegrias e nos expressamos de forma livre, sem a preocupação com o julgamento alheio, se estamos fazendo bonito ou feio. Somos fieis à nossa verdade. Só que em algum momento de nossas vidas, entendemos que não somos aceitos pelo que somos e da maneira que somos e daí vem a ideia de que somos inadequados e, consequentemente, as defesas surgem. Por tanto buscar amor, por tanto reprimir nossas emoções; a vida nos faz cheios de defesa: ora doce, ora atroz, ora manso, ora feroz. Seguimos guiados pelas defesas e por buscar adequação. “Eu, caçador de mim”. Onde está aquela verdade e autenticidade que me guiava antes?
E seguimos presos a canções, entregues a paixões que nunca tiveram fim; porque o que mais buscamos é somente e simplesmente ser amados. Paixões que vamos despertando, justamente nessa tentativa de preencher nosso vazio. E vamos nos encontrar longe do nosso lugar, porque somente quando a gente sai da conhecida – e nada confortável – zona de conforto, é que a gente começa a perceber o quanto tem para observar, para avaliar, para melhorar, para modificar. Somente fora da zona de conforto é que a gente se permite fazer diferente. Dói, incomoda, é altamente desconfortável sair da zona de conforto, mas só assim podemos ser caçadores de nós mesmos.
E não há “nada a temer, senão o correr da luta!” Porque chega um momento de nossas vidas em que se torna inevitável continuar fugindo. Quanto mais a gente corre, quanto mais a gente foge, mais aquilo que está ali gritando para ser visto, identificado, olhado, mais vai gritar para ser olhado. Quanto mais a gente insiste em não olhar para nossas dores, traumas, falhas, lacunas, mais elas persistem e incomodam. E não há “nada a fazer, senão esquecer o medo” de olhar para todo esse conteúdo que está dentro de cada um de nós. Até porque o medo existe justamente para nos guiar para nossas fraquezas, nossa vulnerabilidade. O medo é um mestre, norteador, um guardião de nossas mais profundas carências. E o que precisamos fazer é “abrir o peito à força numa procura” pelo encontro com nós mesmos, fugindo às armadilhas dessa mata escura que é a nossa mente, que tanto mente.
Que possamos ser, de fato, caçadores de nós mesmos.
Eu, aqui, sigo sendo caçadora de mim. Inclusive ao som de Milton Nascimento.

 

* – Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.
E-mail: mari.benedito@outlook.com