Temer e as instituições 

A “perseguição” ao presidente Michel Temer não é só do Ministério Público. É também da Polícia Federal, que coloca o chefe do Executivo no topo de uma organização criminosa. Aliás, a defesa do ex-presidente Lula usa a “perseguição” como argumento para justificar todas as acusações contra o petista. Neste ponto, o temismo e lulismo se … Leia Mais


O presidenciável do PDT é Ciro

* Marco Wense   Se não ficar inelegível, Luiz Inácio Lula da Silva será o candidato do PT à presidência da República na eleição de 2018. O do PDT é Ciro Ferreira Gomes. No entanto, muitos filiados da legenda brizolista, desprovidos de qualquer compromisso partidário, ainda continuam embevecidos pelo petista. Alguns, como trabalham no governo … Leia Mais


De volta ao passado

Das duas, uma: ou o PT não aprendeu a lição ou protagoniza um cinismo que vai ficar na história da legenda como o fato mais negativo da sua existência. O Partido dos Trabalhadores, com o aval da sua maior liderança, o ex-presidente Lula, já faz planos para se aliar com os mesmos de sempre, com … Leia Mais


Fernando, PT e Wagner        

Esse Fernando Gomes não é fácil. Esperou o resultado final do julgamento no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para dizer que não tem compromisso com o PT. Cozinhou o PT em banho-maria.Usou, usou, e agora descartou. E para mostrar sua independência, ainda disse, com todas as letras maiúsculas, que não vai votar em Jaques Wagner para … Leia Mais


O PT e o centrão da Bahia

A ordem no PR é não fechar as portas para ACM Neto, já que a chance de integrar a chapa majoritária governista é cada vez mais remota. João Leão, do PP, continua como vive. Uma vaga do senado é de Jaques Wagner (PT). A outra é do PSD do senador Otto Alencar. O ponto comum … Leia Mais


Salvar as filantrópicas

Revendo a rica história do nosso Brasil encontramos que os primeiros hospitais erguidos no país foram os filantrópicos, representados, principalmente, pelas Santas Casas de Misericórdia que se espalharam pela jovem nação,copiando o que existia em Portugal desde o final do século XV. Já escrevemos  bastante sobre isso, ao falar da nossa centenária Santa Casa de Misericórdia de Itabuna e voltaremos ao tema, não somente para relembrar fatos do passado como para chamar a atenção dos descaminhos experimentados pela rede hospitalar nacional, fato bastante conhecido já que constantemente  abordado pelos meios de comunicação, principalmente pela televisão.

A população cresce, as demandas cada vez maiores, os gastos são incontroláveis mas a receita da rede hospitalar só faz encolher; tenho citado, vez por outra, a publicação da Conselho Federal de Medicina e que, no seu último número diz o seguinte: “O governo brasileiro continua a fazer mal seu dever de casa. Ao contrário de todos os países com sistemas de saúde de acesso universal, como é o caso do SUS, por aqui os dados mostram o encolhimento da participação do Estado com esse gasto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que entre 2010 e 2014 o recuo chegou a 32%. O cálculo levou em conta a soma das despesas da União, estados e municípios. O descaso aparece na posição constrangedora do país em rankings internacionais. No continente, a performance brasileira fica entre as três piores, deixando atrás apenas o Haiti e a Venezuela.”

Entre os hospitais filantrópicos, aí incluídos os das Santas Casas, mais de 2.000 estão com débitos na casa dos 21 bilhões de reais e a situação tende para a insolvência, o que já ocorreu com alguns. Esses hospitais respondem por 35 % dos leitos disponíveis para o SUS e, em 957 municípios brasileiros,são os únicos disponíveis.

Tramita no Congresso Nacional o PL 7606/2017, de autoria do Senador José Serra, criando o programa de Financiamento Preferencial às Instituições Filantrópicas e Sem Fins Lucrativos, que já foi aprovado, por unanimidade, na Comissão Especial criada para analisar a matéria .O programa concede duas linhas de crédito para as Santas Casas, um de reestruturação patrimonial e outro de capital de giro e injetará cerca de 25 bilhões de reais em socorro a essas instituições que muito têm feito pela saúde do brasileiro. Todos os hospitais filantrópicos são obrigados a prestar 60 % do seu atendimento ao SUS e isso muitas vezes é ultrapassado, como tem ocorrido com os hospitais da nossa Santa Casa de Misericórdia de Itabuna.

Dados da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos mostram que, desde o plano real, o aumento concedido, acumulado, foi de 93% frente a uma inflação, também acumulada, no mesmo período, de 413 %.

Esses dados são incontestáveis e servem para desmascarar os ultrajes lançados contra essas entidades, cujos dirigentes são acusados, muitas vezes, de incompetentes e desonestos.É evidente que, em um universo tão grande, como é a rede hospitalar brasileira, apareça algum espertalhão para dilapidar os recursos da instituição mas, isso não é a regra. Há 47 anos que atuo nos hospitais da nossa Santa Casa e sou testemunha dos esforços e das agruras dos seus dirigentes.

Nunca foi fácil dirigir uma instituição filantrópica e está ficando, cada dia, mais difícil.

João Otavio Macedo.


MÊS DAS CONFUSÕES

Chegamos ao mês de agosto, mês que, para alguns, é o mês do desgosto”, principalmente para o conturbado mundo da política. Com efeito, dois importantes acontecimentos na história política do Brasil ocorreram nesse mês: o primeiro deles foi o suicídio de Getúlio Vargas, ocorrido a 24 de agosto de 1954 e, o segundo, a inesperada renúncia do histriônico Jânio Quadros, a 25 de agosto de 1961. Ambos acontecimentos tiveram grandes consequências e que mexeram com o curso da história do nosso país.

Nesta semana tivemos o reinício dos trabalhos no Congresso Nacional e, enquanto faço estas notas, não houve, ainda, a decisão da Câmara dos Deputados se aceita, ou não, a denúncia contra o Presidente Michel Temer, remetendo-a ao Supremo Tribunal Federal. Os ânimos estão acirrados na “fabulosa” capital do país, com os dois lados se engalfinhando; um lado quer manter Temer na presidência; o outro quer vê-lo bem distante.

Não votei na chapa Dilma/Temer mas não gostaria, a esta altura, que ele saísse do seu posto, pelos motivos que vou citar: falta menos de um ano e meio para ele deixar, legalmente, o cargo; o seu afastamento, por renúncia, por impeachment ou por outro meio qualquer, implicará em eleições indiretas, pelo Congresso Nacional e será uma nova confusão, isso se não acharem de modificar a constituição para permitir a realização de eleições diretas; como se costuma dizer que o “tempo voa”, bem ligeiro estaremos no final do ano e o que suceder a Temer terá pouco tempo para, efetivamente, governar. O atual governo, bem ou mal, e mesmo enfrentando índices baixíssimos de impopularidade, tomou algumas medidas que melhorarão o futuro do país, como a reforma trabalhista, a prometida reforma da previdência; as exportações vêm melhorando, a taxa SELIC vem caindo, a inflação também. Por outro lado, temos na presidência da república, uma pessoa comedida, de grande cultura e afável no trato com o semelhante. Não tem a envergadura de estadista de um Juscelino Kubitschek ou de um Fernando Henrique Cardoso mas, bem melhor que seus dois antecessores.

Também não acredito na sinceridade de muitos parlamentares que querem ver Temer no olho da rua; alguns estão agindo inteiramente dentro da ideologia de seus partidos, alguns bem conhecidos e que desejam solapar a democracia mas, a maioria, está, mesmo, de olho nas eleições do próximo ano. A operação Lavo Jato vem mostrando como a Odebrecht e a JBS compraram políticos de vários partidos, muitos deles, hoje, pedindo a cabeça de Temer e vociferando contra a corrupção.

Vamos aguardar a decisão soberana da Câmara dos Deputados quanto ao destino do governo Temer. O futuro dirá do acerto, ou não, daquela casa legislativa, em relação a um governo eivado de denúncias, muitas das quais tenho dúvidas quanto a sua veracidade. E vamos esperar que agosto passe bem depressa, levando os agouros para muito distante e traga paz ao nosso grande e complexo Brasil.

João Otavio Macedo.


PCdoB, a denúncia e a reeleição de Rui

Davidson Magalhães

* Marco Wense

O PCdoB tem razão de sobra para ficar magoado com o governador Rui Costa no episódio envolvendo a defenestração de Davidson Magalhães na votação da denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB).

Davidson, além de ser o comandante estadual da legenda, sempre se mostrou parceiro do chefe do Executivo, até mesmo no silêncio diante da aliança com o prefeito Fernando Gomes, ainda filiado ao DEM.

Vale ressaltar que o comunista é uma das poucas lideranças de oposição ao governo municipal presentes nos encontros entre Rui e Fernando.

E mais: Davidson, sem nenhum tipo de constrangimento, faz questão de registrar a inusitada união tirando fotos do lado do governador e do prefeito.

Tiraram o “Fora Temer” da boca de Davidson. E deu no que deu: terminou Josias Gomes, seu substituto, antes programado para o “Fica Temer”, votando a favor da denúncia da PGR.

Toda a insatisfação do PCdoB foi externada no voto de Daniel Almeida: “Em nome do deputado Davidson Magalhães, que foi retirado dessa votação, e em meu nome, voto não”.

E quais as consequências desse reprovável gesto da cúpula do PT com o deputado Davidson Magalhães? A resposta é nenhuma. A sobrevivência política do PCdoB está nas mãos do petismo.

Além de Davidson ser suplente de Josias Gomes, podendo a qualquer momento deixar a Casa Legislativa, tem a sobrevivência política do próprio PCdoB, que não tem outra opção que não seja a de apoiar a reeleição de Rui.

Com efeito, só tinha um caminho para o PCdoB se afastar do PT: uma candidatura do senador Otto Alencar ao Palácio de Ondina. O parlamentar já descartou, de maneira até incisiva, essa possiblidade.

Aliás, nem mesmo os evidentes sinais de que ACM Neto poderia abrir mão de sua postulação para apoiá-lo, fizeram com que Otto recuasse da decisão em relação ao segundo mandato de Rui.

O PCdoB, sem nenhuma chance de integrar a chapa majoritária, vai ter que aceitar as imposições do PSD de Otto, do PR de José Carlos Araújo, do PP de João Leão e do próprio PT.

Geraldo, PT e os companheiros      

Geraldo Simões

Os companheiros do Partido dos Trabalhadores podem até criticar o ex-prefeito de Itabuna, Geraldo Simões de Oliveira, por alguns fatos políticos.

Entre as situações que marcaram a insatisfação com o ex-alcaide, a sua insistência no “projeto familiar” para comandar o Centro Administrativo foi a que mais desagradou o petismo.

Por duas vezes, Geraldo lançou sua esposa Juçara Feitosa para disputar a sucessão municipal, contrariando o então governador Jaques Wagner.

A perseguição ao ex-gestor, tendo na linha de frente Josias Gomes, hoje secretário estadual de Relações Institucionais, se deu por outro motivo.

Josias, que chegou a ser geraldista de carteirinha, sempre sonhou com a prefeitura de Itabuna. Mas nunca teve o apoio de Geraldo.

Sorrateiramente, Josias Gomes, usando a influência do cargo, começou a minar a liderança de Geraldo no sul da Bahia, mais especificamente em Itabuna.

Não satisfeitos com as maldades, agora começam a espalhar que a rebeldia de Geraldo com a aliança entre Rui Costa e Fernando Gomes é só por pouco tempo.

Insinuam que Geraldo vai deixar de fazer oposição ao governo municipal assim que for nomeado para o primeiro escalão do governo Rui.

Com efeito, Geraldo Simões é o único petista, no rol dos graúdos, que se mantém na trincheira de não aceitar essa estranha e inusitada aproximação, cada vez mais intensa.

Falem o que quiser do ex-prefeito de Itabuna, que ele é isso e aquilo. Só não podem falar que Geraldo é incoerente, traidor e oportunista de plantão.

O agradecimento de Aleluia

O deputado José Carlos Aleluia, na sessão da Câmara para votar a admissibilidade ou não da denúncia contra o presidente Michel Temer, fez um agradecimento ao governador Rui Costa (PT).

“O governador Rui Costa, em um momento de lucidez, pensando no melhor para o Brasil, liberou dois secretários para votar a favor do presidente”, disse o comandante estadual do DEM.

Os dois homens de confiança de Rui, liberados para a votação na Casa Legislativa, são Josias Gomes (Relações Institucionais-PT) e Fernando Torres (Desenvolvimento Urbano-PSD).

A dúvida ficou na verdadeira intenção de Aleluia. Ou seja, se o aliado do prefeito ACM Neto agradeceu de verdade ou se foi um deboche, uma provocação.

Só faltou Aleluia dizer que o governador Rui Costa foi um grande “companheiro”.

O segundo toma-lá-dá-cá

Os defensores do presidente Michel Temer na CCJ da Câmara dos Deputados já estão de olho na segunda denúncia contra o chefe do Executivo, que deve acontecer ainda neste mês de agosto.

Agora é uma nova negociação, obviamente mais vantajosa, já que o preço pelo desgaste de apoiar um presidente com mais de 90% de rejeição pode custar o mandato.

É assim que caminha a República Federativa do Brasil, cada vez mais chafurdada na lama, no vergonhoso toma-lá-dá-cá.

São todos inocentes

Esse corporativismo do Congresso Nacional me faz lembrar dos Três Mosqueteiros, do “um por todos e todos por um” na defesa do rei Luiz XIII.

Deixando de fora alguns parlamentares, presenciamos nas duas Casas Legislativas – Câmara dos Deputados e o Senado da República –, um “mosqueteirismo” ao modo brasileiro.

No nosso caso, sendo cúmplice da corrupção e instrumento a favor da impunidade, que continua debochando de tudo e de todos.

Até agora, nada. Ou seja, mais de 200 representantes do povo citados nas delações premiadas, sendo investigados pela Polícia Federal, e o silêncio é ensurdecedor.

Nenhum processo foi aberto pelos Conselhos de Ética da Câmara e do Senado. Um corporativismo sujo, digno de uma republiqueta.

Cada vez mais juntos

A aproximação do PT com o DEM fica cada vez mais intensa. Depois do prefeito Fernando Gomes, vem agora José Ronaldo, alcaide de Feira de Santana.

Em relação ao ex-inimigo número 1 do PT, vale a ressalva de que a culpa pela inusitada aliança foi de ACM Neto, na sua indecisão de apoiar FG na última sucessão municipal.

ACM Neto queria que o fernandismo e a então presidente do DEM de Itabuna, Maria Alice, apoiassem o tucano Augusto Castro em detrimento de Fernando Gomes.

Agora, a cúpula do PT quer que o ex-presidente Lula tenha uma conversa com José Ronaldo, aliado de ACM Neto. O PR é o encarregado de promover o encontro.

Na minha modesta opinião, o gestor de Feira de Santana, que fica nesse vai-não-vai – durante o dia é ACM Neto e pela noite Rui Costa – vai terminar se queimando.

O saudoso Leonel de Moura Brizola dizia, e com toda razão, que “a política ama a traição e abomina o traidor”.


Itabuna, ontem e hoje

 

Na data em que festejamos a elevação do então Arraial de Tabocas à condição de município e cidade de Itabuna, ocorrido a 28 de julho de 1910, vamos fazer um pequeno passeio pelo passado, procurando entender as transformações vividas pela cidade nesses 107 anos, avivando a memória dos mais velhos e mostrando, aos mais jovens, o que foi e o que é a nossa Itabuna. Vou me reportar aos últimos 70 anos, começando na década de quarenta até os dias presentes, utilizando, principalmente, dos fatos guardados na memória e do que foi publicado pelos nossos historiadores Manoel Bonfim Fogueira, Oscar Ribeiro Gonçalves, José Dantas de Andrade, Adelino Kfoury Silveira e outros que têm se dedicado a esmiuçar a história e estórias deste pedaço do território baiano.

Hoje nos deparamos com quase 100 bairros quando, na década de quarenta ,podíamos contar nos dedos e citar o centro da cidade e os bairros de Taboquinhas, Pontalzinho, Lava-Pés, Berilo, Mangabinha, Burundanga, Bananeiras, Abissínia, Pau Caído, Alto Maron; a cidade crescia e já se notava que novos bairros estavam nascendo, como Fátima, Banco Raso, Vila Zara, Fuminho e o crescimento se fazia em direção às estradas para Pirangi, Ilhéus, Palestina e, às margens direita do Cachoeira local onde, Félix Severino do Amor Divino ergueu o primeiro casebre do futuro povoado, hoje a pujante Itabuna.

Apenas o centro da cidade tinha as ruas calçadas a paralelepípedo e recebia água encanada; essas benesses do progresso demoraram para chegar aos bairros. A energia elétrica era fornecida por dois possantes motores a diesel, localizados na usina do Cajueiro,que eram desligados por volta das 22 horas e religados na manhã do dia seguinte; os moradores usavam os “fifós”, candeeiros e, os mais abastados, os potentes Aladim. No final da década de 50 chegou a energia do Funil e o fornecimento foi regularizado. Fato interessante e muito lamentado ocorreu em plena copa do mundo de 1954, quando houve um incêndio na Usina do Cajueiro e ficamos mais de um mês sem energia elétrica; poucas residências dispunham de geladeira.

Sem dúvida alguma o porto de Ilhéus era o principal local de entrada de mercadorias e novidades vindas de outros estados, principalmente do sul e sudeste e, também, do exterior; de Ilhéus para cá, utilizava-se o transporte rodoviário e o ferroviário; é bom lembrar que a estrada de ferro começou a funcionar no ano de 1913 e a estrada de rodagem inaugurada em 1928.

Até os anos cinquenta, o município de Itabuna era grande e ia até Itapuí, hoje Itororó, e as marinetes da Companhia Viação Sul Baiano (SULBA) ligavam a cidade a alguns de seus distritos, principalmente os mais prósperos como Macuco (Buerarema), Itaúna (Itapé), Palestina (Ibicaraí). Também havia linhas para Ilhéus e outras localidades da região.

Ouviam-se as notícias do Brasil e do mundo pelo rádio e as ondas mais sintonizadas eram de rádios do Rio de Janeiro, então capital da república, secundados por rádios de Salvador e de São Paulo; na região cacaueira, não se perdia o Repórter Esso, na voz possante de Heron Domingues, principalmente o do horário das 20:25 hs. quando era noticiado o preço do cacau na bolsa de Nova York; preço alto do cacau, festas e sorrisos; preço baixo, desânimo e tristeza; os cacauais eram atacados pelo “mela” mas, a “vassoura-de-bruxa” ainda não havia sido trazida para cá. O rádio teve um papel importantíssimo na difusão das coisas do Brasil e, para os mais novos, que não alcançaram essa época de ouro, fica a explicação da grande torcida que, até hoje, os clubes de futebol carioca desfrutam; nos meus doze anos, ouvido colado ao rádio, comecei a sofrer com o meu Vasco da Gama,principalmente quando jogava com um certo time da Gávea; ainda tenho a impressão de ouvir a narração de Jorge Cury e Antonio Cordeiro.

Nos anos cinquenta, a organização dos Diários e Emissoras Associadas, do paraibano Assis Chateaubriand, dominava o país e tinha prestígio semelhante ao que tem, hoje, a Rede Globo ou, talvez mais; a sua mais importante publicação era a revista semanal o Cruzeiro, com os melhores articulistas do país e o impagável ‘Amigo da Onça”; os leitores aguardavam, ansiosos, a piada e as artimanhas dessa criação do artista Péricles.

A década de cinquenta foi uma década de ouro, para o Brasil e para Itabuna; duas  novas pontes foram construídas sobre o Cachoeira; ampliou-se o leque de educação na cidade; novos cinemas foram inaugurados e, também, a primeira estação de rádio, a Radio Club de Itabuna; foi reativado o velho estádio da LIDA, recomeçando o campeonato de futebol local; clubes do Rio, Salvador e Recife vieram se apresentar em nossa cidade; o primeiro deles foi o Botafogo, trazendo Nilton Santos, Garrincha, Quarentinha, Pampolini e outros bambas; a seleção de Itabuna ganhou um importante torneio intermunicipal,sangrando-se campeão nos gramados da Fonte Nova.

A juventude esbanjava alegria e vigor nas festas do Grapiúna e do Itabuna, principalmente no Carnaval; festas de estudantes, com quermesses, paquera e várias brincadeiras; às tardes e nas noites cálidas, o “footing” no jardim da Praça Olinto Leone, a conhecida praça da Prefeitura, com uma amurada ao lado do rio, onde muitos namoros começaram; isso quando não ocorria alguma vaca, ou boi, desgarrar-se do grupo, que se dirigia ao matadouro local, onde hoje situa-se o IMEAM, causando um tremendo alvoroço; correria para todos os lados e, certa vez, uma rês desgarrada chegou a entrar no pátio da Ação Fraternal; lojas eram fechadas até que um garboso vaqueiro dominava o animal e o trazia de volta ao redil.

Muito teria a contar sobre esses anos de ouro em que a violência beirava o zero; o tóxico era” coisa de se ouvir falar”; o núcleo familiar ainda não sofrera tantas dilacerações e o romantismo imperava; os jovens namoravam; alguns noivavam e casavam; respeitava-se pai e mãe e os políticos não eram tão corruptos; claro que não tínhamos as facilidades de hoje; a televisão dava os primeiros passos e não se imaginava que apareceriam a internet e o celular. Esses tempos eram melhores que os de hoje? Não sei, deixo a resposta com o (a) prezado (a) leitor (a).

E assim chegamos aos 107 anos do velho Arraial de Tabocas, hoje a nossa Itabuna, cidade das mais importantes do nordeste brasileiro; a vassoura-de-bruxa” expulsou muita gente da zona rural para a urbana e, a nossa Itabuna, também experimentou esse aumento inesperado e não planejado de sua população; bairros surgiram e, com eles, problemas de vários tamanhos. Fica, para os governantes, a argúcia e a vontade de resolver as demandas surgidas dessa inversão populacional. Mas, a história de qualquer comunidade, é escrita por todos que aí vivem; cada um coloca o seu tijolinho e vai erguendo esse edifício maravilhoso e complexo que se chama cidade. Parabéns Itabuna.

João Otavio Macedo.


Nem surpresa, nem espanto

* Marco Wense

Quem vai ter mais problemas para compor a chapa que vai disputar o comando doPalácio de Ondina nas eleições de 2018, o governador Rui Costa (PT) ou o prefeito ACM Neto (DEM)?

A chapa majoritária tem quatro vagas: governador, o vice e duas para o senado da República. Em relação ao Parlamento, são vários caciques para poucas ocas.

Se ACM Neto tem o PMDB dos irmãos Vieira Lima, Rui Costa vice o dilema do PSB da senadora Lídice da Mata, cada vez mais longe de disputar sua reeleição pela base aliada.

De olho no bom tempo de televisão do PMDB, o alcaide soteropolitano quer o apoio do PMDB sem a companhia do deputado federal Lúcio Vieira Lima e, principalmente, do mano Geddel, investigado no âmbito da Operação Lava Jato.

O governador sabe da importância do PSD do senador Otto Alencar para a conquista do seu segundo mandato. Não vai ceder espaços para os socialistas em detrimento da força política do, digamos, “otismo”.

Sentindo o cheiro da fritura, pensando na sobrevivência política, o PSB procura se revigorar convidando lideranças políticas para a legenda, como o demista Zé Ronaldo, prefeito de Feira de Santana.

Zé Ronaldo é também postulante a uma vaga para disputar o Senado, mas tem a concorrência do PSDB, que tem Jutahy Júnior como postulante, e do PMDB.

Rui Costa

E qual seria a melhor solução para Rui Costa e ACM Neto, a que evitaria um desgaste maior e uma acomodação menos traumática?

O melhor caminho para a oposição é uma chapa com ACM Neto governador, o vice do PMDB, com a escolha recaindo sobre algum deputado estadual, e as duas vagas para o Senado com José Ronaldo e Jutahy Júnior.

ACM Neto é o óbvio ululante, um único oposicionista com viabilidade eleitoral para enfrentar o governador. É bom lembrar que o “já ganhou” dos petistas não é mais propagado.

O PMDB na vice evitaria a rebeldia dos Vieira Lima, garantindo assim o indispensável tempo no horário eleitoral. Aliás, é só o que a legenda tem para oferecer. O PSDB ficaria satisfeito e o DEM também.

Pelo lado do governismo, o vice de Rui continuaria João Leão, sob pena de criar um atrito com o PP. As duas vagas para o Parlamento com Jaques Wagner (PT) e Ângelo Coronel pelo PSD de Otto.

E o PCdoB, PDT e os outros partidos que compõem a base aliada do governo Rui Costa? Quando o assunto é a composição da chapa majoritária, comunistas, socialistas e pedetistas são como patinhos feios.

Toda essa análise, no entanto, pode ser desmoronada lá na frente. A política costuma surpreender e causar sobressaltos e fatos antes tidos como “imexíveis”.

Com efeito, o que pode provocar uma mudança em toda essa modesta opinião da Coluna Wense, são os resultados das pesquisas de intenção de votos.

Não é só uma parcela considerável do eleitorado que vai atrás do candidato que se encontra na dianteira das consultas. Muitos políticos também agem dessa maneira, são os oportunistas de plantão.

Concluo dizendo que nada está definido, que Rui Costa pode ser reeleito como ser derrotado. Reeleito pela opinião de que faz um bom governo e derrotado pela incontida vontade de mudar, assentada no “PT Nunca Mais”.

A disputa Rui Costa versus ACM Neto, antes tida como favas contadas pelos aliados do governador, vai ser acirrada. Qualquer desfecho não será surpresa e nem espanto.

PS – Interessados na ajuda financeira do governo, alguns chefes de Executivo, principalmente de partidos de oposição, andam dizendo que vai apoiar a reeleição de Rui Costa. “A traição é inerente ao mundo político”, dizia o saudoso e inesquecível jornalista Eduardo Anunciação.


A derrocada do PSB

Miguel Arraes (foto Internet)

*Marco Wense

Toda agremiação partidária, independente do campo ideológico, tem sua banda podre. Aí não cabe a máxima de que toda regra tem exceção.

Quando falo de ideologia, o faço apenas por uma questão meramente didática, para uma melhor compreensão do leitor.

Essa especificação de direita, esquerda ou qualquer outra, perdeu consistência. Não se faz mais política com posições firmes e coerentes, assentadas em princípios.

O que se observa é uma busca desenfreada – e sem escrúpulos – para atender interesses pessoais ou de grupos. O fim justifica os meios.

Não é só o mofadosistema político que está putrefato. Os homens públicos, “dignos” representantes do povo, deixando de fora as poucas e honrosas exceções, perderam a vergonha.

É triste, muito triste, só para citar um exemplo mais recente, ver o PSB, que é o Partido Socialista Brasileiro, do saudoso Miguel Arraes, totalmente desfigurado.

O PSB, que tem uma brilhante história na defesa da inclusão social, sempre do lado dos mais desprotegidos, descamba para o fisiologismo e o toma-lá-dá-cá.

O presidente Michel Temer, de olho no fortalecimento de Rodrigo Maia, seu substituto imediato, se encontra com a deputada Tereza Cristina, líder do PSB, para evitar que parlamentares insatisfeitos com o partido se filiem ao DEM. Quer todos no PMDB.

Até aí tudo dentro do jogo político, mesmo não sendo uma tarefa para um presidente da República, que deveria estar preocupado com outros problemas.

A líder socialista até que poderia aproveitar a conversa com o chefe do Executivo para cobrar melhoras na saúde, na educação, enfim, em vários setores da administração ou, então, protestar sobre alguns pontos da reforma Previdenciária.

Que nada. A preocupação da representante do PSB na Câmara dos Deputados era com a bancada ruralista. Foi reclamar da Receita Federal, que tem se negado a mudar entendimentos regulatórios que beneficiariam os ruralistas.

Poucas horas depois da audiência com o mandatário-mor da República, Cristina se reuniu com o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid.

O PSB de hoje nega o PSB de ontem. A legenda caminha a passos largos para não ter o amanhã.

O cinismo e os partidozinhos

O cinismo maior do momento político, marcado por um lamaçal sem precedentes na história da República, fica por conta de Temer e Maia.

Nunca vi tanta falsidade entre dois políticos. Nas declarações públicas são como dois amiguinhos de infância. Nos bastidores, um querendo destruir o outro.

Eles se conhecem. Sabem que são parecidos quando o fim é a conquista do poder, não importando os meios. A tapeação é recíproca.

Não adiantou Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, mostrar a Michel Temer mensagem da mãe cobrando lealdade ao chefe do Executivo.

Temer não entrou no jogo emocional de Maia, apelando para a própria genitora para convencê-lo de que é um parceiro confiável.

Bastou menos de 24 horas para que Temer entrasse em campo para evitar o fortalecimento de Maia com a ida de parlamentares do PSB para o DEM.

Deputados insatisfeitos com o partido que tem a pombinha como símbolo estão procurando uma nova agremiação partidária.

De olho na sua candidatura ao Palácio de Ondina, o prefeito ACM Neto ajuda Maia na difícil missão de trazer os “socialistas” para o staff demista.

Temer tem uma arma fulminante contra Maia, a mesma que usou para sair vitorioso na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ): a caneta para liberar o “faz-me-rir”.

Em priscas eras, como diria o saudoso jornalista Eduardo Anunciação, a saída de um parlamentar do PSB para um partido de outro campo ideológico, significava o fim da carreira política.

Hoje, a debandada ocorre sem nenhuma cerimônia e sem qualquer tipo de constrangimento. O óbvio ululante é que os partidos perderam o respeito. São partidozinhos.

Aliança inusitada       

Em conversas reservadas, algumas lideranças petistas têm dito que essa aproximação do PCdoB com o DEM é “inaceitável”.

Não se sabe ainda a posição da senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, em relação a essa inesperada e estranha composição.

O ex-ministro Aldo Rebelo, figura de destaque no staff comunista, é o responsável pelo namoro entre a legenda e o demista Rodrigo Maia, comandante-mor da Câmara dos Deputados.

Os petistas lembram que Maia foi um dos responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff e que o DEM teve um papel importante no “golpe”.

A inusitada aliança já conta com o aval e o entusiasmo da deputada federal Luciana Santos (PE), presidente nacional do PCdoB.

Vale lembrar que Rodrigo Maia é o substituto imediato de Michel Temer e fortíssimo candidato em uma eventual eleição indireta.

O PCdoB, portanto, se distancia do PT e passa a ser conivente com as pretensões de Maia: ser presidente da República sem o voto popular.

Que venha outra        

Engana-se quem pensa que a maior torcida por uma nova denúncia contra o presidente Michel Temer seja dos seus adversários.

Ledo engano. Quem sonha todos os dias com uma nova acusação contra o peemedebista são seus defensores na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

A preocupação em defender um chefe de Executivo com uma estrondosa impopularidade é café pequeno diante do toma-lá-dá-dá.

A CCJ, que é umas das mais importantes comissões da Casa Legislativa, se transformou em um verdadeiro balcão de negócios. Uma vergonha.

E por que querem mais e mais denúncias contra o chefe do Executivo?

A vitória de Temer na CCJ custou a bacatela de R$ 15 bilhões entre recursos para aliados e emendas parlamentares.

Ora, ora…

A vez da economia

No aspecto moral, oposicionistas e governistas, deixando de fora algumas e honrosas exceções, se igualam.  Estão chafurdados no lamaçal.

Um fica com medo da pedrada do outro, já que seus telhados são de vidros. Quem acusa termina sendo acusado pelo mesmo crime, quase sempre de corrupção.

O “Fora Temer” versus “Fica Temer” vai ter que ser disputado no campo econômico, com a imprensa exercendo o protagonismo.

O Ministério do Trabalho divulgou na segunda-feira, 17, que o Brasil abriu 9.821 vagas formais no mês de junho.

Aí as manchetes são dadas de acordo com os interesses de cada meio de comunicação, seja por jornais, blogs, televisão e etc.

O Estadão, por exemplo, no alto da primeira página estampou: “País cria 9.821 vagas com carteira em junho, terceiro mês com resultado positivo”.

Vem o Brasil 247 e diz: “Mercado de trabalho frágil mostra que depressão continua”.

Ainda bem que vivemos em uma democracia, mesmo com suas falhas e seus relampejos autoritários.

Procura-se um presidente    

Conforme anunciou o blog Pimenta, a secretaria de Governo Maria Alice, fiel escudeira do prefeito Fernando Gomes, vai para o PSD do senador Otto Alencar.

A ida de Alice para o PSD se deu até mesmo por falta de opção, já que outros partidos da base aliada do governador Rui Costa (PT) foram descartados.

Não sei como será o relacionamento da secretaria com o prefeito ACM Neto. O alcaide soteropolitano sempre teve um bom relacionamento com a “dama de ferro”.

Agora, é encontrar alguém que possa substituir Maria Alice no comando municipal do DEM. Tem pretendente que pode ter uma recaída pelo fernandismo.

Todo cuidado é pouco. A política não costuma socorrer os que dormem e, muito menos, os ingênuos e incautos.

Menino maluquinho       

O prefeito de São Paulo, o tucano João Doria, obviamente do PSDB, perdeu a estribeira, como diria a minha saudosa vovó Nair.

O alcaide, cada vez mais assustado com o crescimento de Jair Bolsonaro (PSC) nas pesquisas de intenções de voto para o Palácio do Planalto, parece descompensado.

Perdeu a compostura que um gestor público deve ter no exercício da sua função. Chega ao ponto de chamar a ex-presidente Dilma Rousseff de “anta”.

Suas atabalhoadas atitudes são motivos de críticas até por parte de lideranças do tucanato. FHC acha Doria um “gestor de Facebook”. José Serra “um blefe”.

O governador Geraldo Alckmin (SP), por conta do bom relacionamento que deve ter com o colega de legenda, prefere o silêncio.

É bom lembrar que Doria é cria política de Alckmin. Mas andou ensaiando, na calada da noite, uma candidatura presidencial mesmo sabendo da intenção do criador de disputar o pleito.

Até o jornal Folha de São Paulo, antes simpático às pretensões dorianas, diz, em editorial, que a candidatura presidencial não passa de um “balão de ensaio”.

Os adversários do mandatário-mor paulistano costumam chamá-lo de “menino maluquinho”. Nas redes sociais vem sendo chamado de “Prefake”.

PS – Fake é uma palavra da língua inglesa que se atribui a pessoas falsas, que não são autênticas, que ocultam a verdadeira identidade.

A debandada dos insatisfeitos         

Como existe um consenso entre governistas e oposicionistas, a “janela” para mudar de partido sem o risco de perder o mandato pode ser transferida para setembro ou outubro desde ano.

Parlamentares insatisfeitos com suas legendas já começam a namoricar com outras agremiações partidárias.

No bojo da reforma política também o chamado “distritão”, que vai eleger para o Legislativo os mais votados em cada Estado.

Aqui em Itabuna, alguns vereadores podem deixar os partidos pelos quais foram eleitos. A fidelidade partidária é novamente derrotada pelo jeitinho brasileiro e o vergonhoso casuísmo.

Os chefes de Executivo, ávidos por uma maioria obediente no Parlamento, que feche os olhos para as falcatruas, vão fazer de tudo para acomodar os desertores nas legendas aliadas.

Todo mundo sabe como funciona esse “vão fazer de tudo”. É o toma-lá-dá-cá, amigo íntimo da impunidade e cada vez mais triunfante e vitorioso.


Desrotulando

 

A vida dá voltas. A todo instante precisamos fazer escolhas. E entre tantas possibilidades escolhemos aquela que, no momento, parece-nos ser, talvez, a mais “justa”, a mais “adequada”, ou a mais “conveniente”. Entretanto, é uma grande bobagem acreditar que se fez, se faz ou se fará a escolha sempre “certa”!

“Ao vencedor, as batatas!” Esse é o foco central do “Humanitismo” do Quincas Borba, o extraordinário personagem do genial Machado de Assis (1839-1908). Oposto ao “Humanismo”, que valoriza o homem, dando-lhe grande destaque a tudo que realiza, o “Humanitismo” é pessimista, ou quem sabe, realista, prático. Vejamos, nas palavras do próprio Quincas Borba: “Supõe-se um campo e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar somente uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutri-se suficientemente e morrerão de inanição. A paz, neste caso, é a destruição; a guerra, é a esperança. Uma das tribos extermina a outra recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se. Ao vencido, o ódio ou compaixão… Ao vencedor, as batatas !”

A vida, nessa perspectiva, é uma luta pela sobrevivência. Daí “nascem” o “vencedor” e o “perdedor”, bem como, entre outras consequências, por exemplo, “nascem” também os rótulos que minam, emperram, constrangem e até destroem nossas relações interpessoais. Ora, a vida é um novelo que deveríamos estar desembaraçando, juntos. No entanto, estúpidos e contrários à simplicidade, nós complicamos, desperdiçamos e rotulamos tudo aquilo que seja contrário ao que pensamos e/ou sentimos.

Assim, não vemos que a vida é assustadora e, simultaneamente, imponderável: podemos engasgar com a nossa saliva, por exemplo, e morrer! Contudo, ainda mais assustador e imponderável é pensar que nossas convicções, decisões ou nossas escolhas foram/são/serão as mais “acertadas”. Bobagem! Sem percebermos (ou mesmo percebendo, o que é muito pior!) incapacitamos nossas mentes e nossos sentimentos porque nos agarramos, absurdamente, aos nossos julgamentos, como se eles fossem algo maior do que realmente são: apenas conceitos!

Galileu Gallilei (1564-1642), físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, há bastante tempo, nos ensinou: “Eppur si muove” (no entanto ela se move), referindo-se ao fato de que a Terra se move em torno do Sol. E se a Terra se move… Porque não os nossos conceitos?! Ora, tudo se move! Especialmente o que pensamos e o que sentimos! Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), por sua vez, proclamou ao final de seu famoso poema “José”: “Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, Sem teogonia, Sem parede nua Para se encostar, Sem cavalo preto Que fuja a galope, Você marcha, José! José, para onde?” Drummond nos ensina que estamos sozinhos e precisamos uns dos outros para mitigar nossa solidão.

Não estamos aqui (e nem sequer sabemos por que estamos aqui) para rotular nada e ninguém! E quando rotulamos, imediatamente, separamos, dividimos, odiamos, complicamos, desgraçamos, estabelecemos fronteiras e desperdiçamos a vida.

Rotular é limitar a inteligência. Rotular é aprisionar o sentimento. Alguém já escreveu um dia que “rótulos foram feitos para produtos, não para pessoas”. Deveríamos, portanto, buscar prioritariamente e incessantemente a liberdade. Aquela liberdade que nos conforta, que nos conecta a nós mesmos, e que pode, enfim, nos tornar pessoas melhores. A liberdade e a felicidade, ainda que efêmeras, podem nos unir. Para alcançarmos essa união e desfrutarmos desses pequenos contentamentos (da liberdade e da felicidade) é bom desrotularmos tudo o que possa adiar esse encontro.

Cláudio Zumaeta – Historiador graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus – BA)  Administrador de Empresas graduado pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL, Salvador – BA). Especialista em História do Brasil (UESC, Ilhéus – BA). Mestrando em História Regional e Local (UNEB Campus V, Santo Antonio de Jesus). Membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL).

 

 


A doida

 

Recebia o pão sem agradecer, como se fosse comprado. Saía andando depressa, em sua caminhada de doida, seguida por um cachorro pulguento. O dono da padaria achava bom, porque ela era suja, um vestido fedendo, os cabelos amontoados, como um ninho de pássaro. Ele a olhava sumindo no passeio e dizia com pena: “Coitada!” A doida caminhava ligeiro, embora não fosse a lugar nenhum. Sem casa, sem parente nem aderente, ela só tinha uma coisa: pressa no andar. Se apegava à rua, era o caminho que devia percorrer, como cada um se apega à vida, a vida que se deve viver. Os pés imundos no chão, sem ter onde descansá-los. O cachorro a seguia um pouco atrás. Mais tarde parou cansada e sentou-se debaixo de uma marquise. O cachorro, solidário, deitou-se ao seu lado. Ela resmungava, de vez em quando, umas duas palavras: “Num vou não!” Aos 14 anos, a mãe a empurrara ao cabaré de Silmara: “Vai ganhar dinheiro, besta!” E ela, em choro, apanhando da mãe: “Num vou não!”  Apanhava até ir. Na volta, a mãe tomava-lhe o dinheiro: “Num te disse que tu ia ganhar!” Na noite seguinte tornaria a bater-lhe até ela ir se deitar com os homens. Sustentava a mãe e os dois irmãos menores assim. Magoada, destruída, fechou-se num isolamento de todos. Obedecia às ordens da mãe e deixava-se possuir pelos homens, mas não falava com ninguém. Criou um mundo próprio, dentro de si, onde passou a morar. Os anos e os bregas foram passando em sua vida. Depois adoecera e nenhuma Casa quis mais aceitá-la. Ficou andando  apressada pela rua. Sentou-se cansada debaixo da marquise. Arquejava e sentia febre da pneumonia. Deitou-se no chão, encostou a cabeça no batente, como travesseiro, e morreu..


O presidente em a apuros

 

A vida não está nada fácil para o atual ocupante do Planalto; vice de uma presidente arrogante que sofreu um impeachment há mais de um ano, esperava-se que o sucessor, pela idade, pela longa experiência no parlamento, pela vida profissional no ramo do direito, fosse completar o mandato de maneira tranquila e entregasse ao sucessor, em 2019, um país um pouco melhor. Entendo, após acompanhar o desenrolar da política brasileira desde os anos cinquenta, que não é fácil conduzir um país das dimensões continentais como o nosso, com tantas desigualdades regionais e com uma classe política que ainda precisa aprender muito.

Já vimos inúmeras crises e, certamente, outras surgirão no futuro; o parlamentarismo não faria desaparecer as crises mas elas seriam diminuídas e resolvidas mais rapidamente; ocorre que o povo brasileiro, chamado a opinar em dois plebiscitos, rejeitou o parlamentarismo, preferindo continuar com um presidencialismo que é rejeitado pela maioria das principais nações democráticas no mundo, a exceção dos Estados Unidos da América do Norte. Outra confusão muito grande é a existência de tantos partidos políticos, se não estou enganado, temos 35 registrados e mais 34 esperando registro. É muito difícil, se não impossível, negociar com tantos grupos políticos, a maioria ávida por negociatas e lançar mão no dinheiro público.

Costumo lembrar que, nos últimos sessenta anos, um presidente cometeu suicídio, outro renunciou com apenas seis meses de mandato, um terceiro foi deposto e dois sofreram o processo de impeachment. A democracia sofreu alguns arranhões, foi instaurada uma ditadura em 1964 que durou até 1985. Excetuando a prática da tortura e a abolição de prerrogativas democráticas, o período ditatorial não foi tão maléfico para o país, como se costuma apregoar; o Brasil avançou, a corrupção, se existiu, era mínima e a violência era a mesma encontrada nos demais países, fruto da própria natureza humana, sem os excessos que estamos vendo no momento; frequentava-se as ruas, avenidas e praças, sem medo, a qualquer hora do dia ou da noite. Vá fazer isso hoje!

Mas, retornando aos problemas vividos pelo presidente Temer, as acusações contra ele são pesadas e, se verdadeiras, o mais certo seria a sua saída. Ainda estou à espera de um pronunciamento da justiça, que possa esclarecer de maneira satisfatória os fatos que estão em jogo, pois acredito que, por trás de tudo isso, há, também, interesses contrariados, tanto nos meios políticos e empresariais como na grande mídia. A disputa política é brutal.

Com Temer ou sem Temer, o que a maioria do povo brasileiro deseja é paz, prosperidade, queda desse monumental desemprego e que voltemos a respirar um pouco de segurança. Continuar com essa situação que estamos vivendo, é umatristeza.

João Otávio Macedo


A vida correndo entre os dedos

Você já mergulhou as mãos no mar, retirou-as e ficou olhando a água escorrer entre os dedos até sumir de todo? Pois é assim que me sinto, quando começo a pensar sobre a minha vida que corre. Um fluxo de lembranças se precipita na memória, sem que eu possa detê-las, como se fossem água vazando. Em pouco tempo, só tenho as mãos vazias, embora ainda molhadas. O meu passado logo se esvai na mente e fico apenas com a sombra de algo que passou, se foi e não mais existe, embora os olhos ainda estejam molhados do que vivi.  Some a água e ficam os dedos; vão-se as lembranças e fico eu, em silêncio, remoendo a mim mesmo. No fim de tudo, apenas a alma cega se procurando no escuro. A vida é assim, contínua, sem pausa, nem mesmo para que você se recomponha e possa continuar a viver. A vida é uma única partida de futebol, sem intervalo nem segundo tempo. Você só pode pensar na vida, vivendo-a, sem lhe pedir um tempo. O tempo é da vida, não pertence a você. Se ela lhe der um tempo, mesmo para pensar nela, é da vida que você o está tirando. Tudo o que a gente viveu é água que passou por nós, escorreu e sumiu. A memória é como uma peneira que mergulha nas lembranças, sem, no entanto, poder trazê-las de volta. Ao fim de cada segundo, tudo se transforma em passado, em lembranças, e você é obrigado a continuar vivendo, ainda que não saiba o que é sua vida. A única coisa que você pode fazer é viver. Arranje alguma crença, uma fantasia bonita como a de Papai Noel.  Ela  não vai lhe explica a vida, mas pode ajudá-lo a sobreviver. Para saber quem é você, não interrogue o passado, que você lembra, nem o futuro, que você não conhece. Você é unicamente espanto e dúvida. Viva assim…