Coluna de Mariana Benedito – Cheios de vazio


“Precisa mesmo fazer cinco coisas ao mesmo tempo e não levantar a cabeça para ver o pôr-do-sol, a lua, o céu, as pessoas ao nosso redor?”


Tem uma frase que circula constantemente na internet, atribuída a Sócrates, que diz o seguinte: tome cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais. Simples e rasteira. Direta e reta.

Mas, meu querido leitor, me chamam a atenção dois pontos quando vejo esta frase. Repare bem. O primeiro é que todo excesso esconde uma falta. Se a gente se percebe nesse movimento de ocupar demais a vida, de trabalhar demais, de não ter tempo para nada, o que a gente está sem querer enxergar? É aquela velha história de ocupar a cabeça para não pensar. Fugindo, desviando a rota. Óbvio que qualquer pessoa que deseja alcançar suas metas profissionais precisa se dedicar, estudar, trabalhar, arregaçar as mangas e fazer por onde as coisas darem certo. Confiar, mas preparar o terreno. Isso é fato! Mas, meu caro, existe um limiar e tempo para tudo. Existe tempo para o trabalho, existe tempo para o descanso, existe tempo para ver e sair e conversar trivialidades com os amigos, existe tempo para ficar com a família, existe tempo para nós.

E eu pergunto a você, que me lê aí do outro lado, precisa mesmo ocupar tanto a vida da forma que a gente vem ocupando? Precisa mesmo trabalhar 25 horas por dia? Precisa mesmo fazer cinco coisas ao mesmo tempo e não levantar a cabeça para ver o pôr-do-sol, a lua, o céu, as pessoas ao nosso redor? Toda essa correria maluca que é pregada no mundo da competitividade, alta produtividade, alta performance levam a gente para onde mesmo? Nós somos seres multi. A gente não cabe em apenas uma definição. Ninguém é apenas uma coisa só. Nós somos profissionais que se dedicam à qualidade do trabalho, mas no mesmo balaio somos filhos, irmãos, amigos, pais, seres humanos que necessitam das relações interpessoais, que necessitam de um tempo de pausa para manutenção. Até as máquinas precisam de manutenção, dirá! Somos seres com emoções, sentimentos, pensamentos, dimensões, sensações das mais variadas e administrar tudo isso aqui dentro, meu amigo, não é nada fácil!

E daí, entra o segundo ponto que me chama a atenção quando leio a frase que abriu esta coluna, lembra? O fato de que a vida não é só pagar boleto. Ser adulto, com responsabilidades e compromissos, requer assumir obrigações e deveres – o que é ótimo, senão a gente não amadureceria e a vida seria um eterno parque de diversão, que uma hora perde a graça – mas a vida passa. E passa rápido. E o mais assustador disso tudo, é que a gente não sabe a hora que um ponto final é colocado na nossa história e o livro é fechado.

A gente está aqui para um propósito maior. Às vezes eu me pego pensando se é possível a mobilização que é feita para estarmos aqui, agora, neste momento, e o nosso único papel ser trabalhar, pagar conta e morrer. Avalie! Nossos pais tiveram que se encontrar, de alguma forma se atraírem um pelo outro, se envolverem no exato momento em que o óvulo da nossa mãe estava pronto para receber o espermatozoide do nosso pai, espermatozoide este que teve que vencer uma corrida com outros zilhões de espermatozoides, nossa mãe nos gerou, alimentou, aguentou todas as dificuldades que uma gravidez impõe, baseada no amor por um ser que ela nunca viu a cara, a gente nasceu, passou pela infância, pela adolescência, chega à juventude, depois à fase adulta para: bingo! Ocupar a vida com trabalho e mais trabalho e não ter tempo de construir relações, doar um colo, um ouvido, um tempo para quem precisa? Não ter tempo de aproveitar momentos com quem a gente ama? Sério? Para chegar ao final da vida e se arrepender de não ter despertado a tempo?

Portanto, meu caríssimo e amado leitor, nunca é tarde e sempre é tempo!

Que a gente ocupe as nossas vidas com o que realmente tem valor.

 

– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com