Coluna de Mariana Benedito – Existe coerência?


“Mentimos para nós com mais frequência do que imaginamos. Fazemos coisas que estão totalmente em dissonância com o que sentimos”


Durante a semana eu vi duas frases que, juntas, fazem um impacto danado e são pano para manga no mundo das reflexões, meu querido leitor. O que você é quando ninguém está vendo? Essa é a primeira. Agora avalie o quanto o nosso desejo de ser aprovado, amado e aceito molda a forma como nos comportamos. E, a partir do ponto em que essa busca pela valorização não tem um objetivo, um alvo a ser atingido, de que maneira a gente se comporta?

Daí, outro dia ouvi uma música de um grupo chamado O Teatro Mágico – são verdadeiras poesias musicadas, com uma sensibilidade absurda em cada verso; vale muito a pena conferir e deixo a dica porque eu adoro deixar uma dica aqui nesta coluna – que possui o seguinte verso: “Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”. Eita!

Será que somos sinceros com nós mesmos? Será que existe coerência entre o que a gente prega, fala e faz? Entre o que a gente faz quando tem plateia e quando não tem ninguém olhando? Dizemos a nós mesmos a verdade sobre o que realmente desejamos, queremos e precisamos? Pois é, meu amado, a probabilidade de reagirmos de acordo ao que é socialmente aceito é muito grande, baseados no que ouvimos e internalizamos, lá no comecinho da nossa existência, que a “tia” vai ficar chateada se falarmos que, no auge da infância, ficamos satisfeitos pelo par de meias ou ao invés do doce ou que o “tio” vai ficar triste se demonstrarmos insatisfação pelas piadas invasivas. Até porque a insegurança bate quando o amor que recebemos é ameaçado.

Mentimos para nós com mais frequência do que imaginamos. Fazemos coisas que estão totalmente em dissonância com o que sentimos. Já virou um verdadeiro hábito, daqueles bons que a gente já faz no automático, sabe? Vamos a lugares que não estamos com vontade por medo de dizer não e sermos rejeitados pelo grupo, aceitamos sair e nos encontrar com pessoas que não estamos tão afim e não gostamos muito,por medo da carência;sentimos vontade de dizer o que sentimos,mas escolhemos ficar calados por medo de não sermos entendidos e aceitos. E assim a vida vai se desenhando e vamos nos acostumando a viver reprimidos.

Na minha humilde opinião, meu caro, ser coerente com o que sentimos é um dos maiores objetivos que temos a cumprir nesta vida. Passar a compreender a razão e a origem de nossos medos, de nossa raiva, tristeza, vergonha abre possibilidades de sermos transparentes e honestos com a gente mesmo.

E tentar esclarecer o que está na raiz de todo o turbilhão de emoções e sensações e pensamentos que nos permeiam é permitir senti-los. Não adianta fugir nem mentir para si mesmo agora, já diria Tim Maia. Espernear, gritar, fazer calundu e birra são comportamentos da criança carente que existe aí dentro e, agora, é hora de ir fundo e entender o que está se passando e o que está sentindo.

Nenhuma parte de nós merece e deveser negligenciada, colocada de lado ou classificada como menos valiosa. O que pensamos, falamos e sentimos precisa ter coerência com aquilo que fazemos e vivemos. Ser transparente e fiel a nós mesmos é o primeiro passo para fazer as pazes com o que está mal resolvido dentro de nós.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica

E-mail: mari.benedito@outlook.com