Coluna de Mariana Benedito – Fake News


“Elas mexem e atiçam e chegam bem no foco da revolta, do desejo reprimido”


 

Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade, já dizia o Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. E hoje, amado leitor, nessa era contaminada pelas falsas notícias, pela mentira escancarada eu realmente me questiono a veracidade desta frase.

Estamos vivendo um momento em que as redes sociais são as principais vias de contato e comunicação e informação. A rapidez com que as notícias são postadas, espalhadas e compartilhadas favorece que se espalhem como vírus, mas, infelizmente, nem sempre a verdade está presente. O que tenho percebido é que as fakes news apelam para o emocional de quem lê. Elas mexem e atiçam e chegam bem no foco da revolta, da indignação, do desejo reprimido e reverberam essas emoções de tal forma que cegam, e o receptor desta mensagem só quer fazer com que ela chegue ao maior número de pessoas para que compactuem deste mesmo sentimento.

Tudo que nos provoca uma inquietação, uma dúvida nos cega. E é justamente aí que a disseminação dessas notícias falsas se vale: uma manchete que causa um rebuliço de cara, dificilmente as pessoas param para ler o conteúdo, porque já foram contaminadas pelo título. Aí o próximo passo já é o botão de compartilhar.

Agora, meu caro leitor, eu fico aqui pensando – acompanhando os mais variados grupos de WhatsApp – o quanto que a necessidade de compartilhar notícias irreais, caluniosas, muitas vezes escancaradamente absurdas, traz um ganho secundário. A pessoa que dissemina fake news se torna, por alguns instantes, foco de atenção. Todos voltados para ela, seja para alimentar a mentira movidos pela mesma cegueira, ou na tentativa de esclarecer sobre o fato. A questão é que tudo, absolutamente tudo, tem um fundo de falta, de lacuna; senão qual seria a necessidade de denegrir, de ofender, de caluniar? Não é mesmo?

Eu não sei se você, que me lê aí do outro lado, já viu uma pintura do francês Jean-Leon Gérôme, chamada “A verdade saindo do poço”; mas sempre que eu vejo ou leio ou assisto alguma coisa relacionada a mentira e fake news e informações tendenciosas, eu só me remeto a essa imagem. Uma mulher nua – a verdade – saindo de um poço com um semblante bem irritado, com um chicote na mão, à procura da mentira que vestiu as suas roupas e saiu para o mundo satisfazendo as nossas necessidades e jogando para o fundinho das gavetas aquilo que não queremos ver.

Estamos preferindo aceitar mentiras vestidas e mascaradas de verdade do que, de fato, encarar a verdade nua e crua.

E isso anda valendo para tudo.

Até para nós mesmos.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica.

E-mail: mari.benedito@outlook.com