Coluna de Mariana Benedito – Mentiras autênticas


"Todo mundo tem, pelo menos, duas mentirinhas de criação. (...) acabamos nos afeiçoando a elas, criando um carinho, rolando um sentimento "


 

Eu não sei se você, meu amadíssimo leitor, já ouviu – ou leu – uma frase, atribuída a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista, que diz: “uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”. Será mesmo?

Uma mentira foi, é e sempre será uma mentira. Não tem para onde correr. Mesmo que seja disseminada aos quatro ventos, espalhada no ar, que nem quando a gente assopra os talinhos daquela flor dente-de-leão, e todo mundo passe a acreditar que seja verdade, ao menos uma pessoa na face deste planeta saberá que é mentira: aquela que a criou.

Levando essa ideia ainda mais a fundo, chego no seguinte ponto: e as mentiras que contamos para nós mesmos? A gente vive se enganando, ecoando caraminholas dentro da nossa cabeça, numa tentativa muito louca de procurar formas menos dolorosas para olhar de frente uma situação. Nos sabotamos, criamos enredos, repetimos e repetimos versões absurdas de uma história com o único objetivo de nos proteger, pra que a dor não doa tanto.

Mas, minha amada criatura, avalie: no fundo, todos nós sabemos que é mentira. Eu sei as mentiras que alimento, você sabe as suas. Todo mundo tem, pelo menos, duas mentirinhas de criação. E, com a convivência, acabamos nos afeiçoando a elas, criando um carinho, rolando um sentimento; a gente se acostuma a contar e repetir essas mentiras até o ponto de elas se tornarem parte de quem somos, estruturas de nossa realidade. Mas, ponto muito importante, elas nunca serão verdade.

As mentiras que contamos para camuflar nossas dores só nos trazem mais dor. Cada vez que as contamos, algo lá no fundinho da nossa existência pisca o letreiro em neon: MENTIRA. E a gente se machuca mais. Nós só continuamos repetindo que nem maritacas fanhas essa ruma de mentira por medo. Medo de enfrentar, medo de olhar de frente, medo de transformar.

Continuar contando essas mentiras só alimenta essa imagem construída – e, diga-se de passagem, bem distorcida – que temos de nós mesmos; a nossa função aqui neste mundão é transmutar, sabe? É colocar um ponto final nas gerações e gerações de dor, jogos de vingança, competição, subjugação e buscar as ferramentas necessárias para encerrar esse ciclo. Hoje nós temos mais caminhos de entendimento das nossas dores, dos nossos traumas e medos do que os nossos antepassados; o mundo está totalmente voltado para estas curas! E é nosso papel realizá-las.

As nossas mentiras não existem sem razão e nem por quê, elas são para nos proteger. Mas, nos proteger de quê? Que bicho-papão é esse que a gente cria para nos impossibilitar olhar para quem somos? Nossa essência, nossa verdade não mudam. O que muda é a interpretação da história que contamos e que nos trouxe até aqui.

Até que ponto vale a pena continuar mentindo, sabendo que é mentira, que nunca se tornará verdade e que só impede de a ferida cicatrizar?

Será que não passou da hora de fazer as pazes com a sua verdade? Pegá-la pela mão, conversar com ela, olhar com carinho e cuidado?

As mentiras machucam tanto… e só a verdade nos liberta.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com