Coluna de Mariana Benedito – O limiar da aceitação


“Parece que somente a partir do caos, a gente consegue enxergar o que precisa ser jogado fora”


 

Aceitação.

Ato ou efeito de concordar, de anuir, aprovar, considerar bom, respeitar. Facilidade em ser bem recebido e acolhido, receptividade. Vamos nos ater a esta segunda definição, meu amado leitor, para seguirmos o raciocínio daquilo que quero trazer hoje, nesta coluna, para a nossa reflexão. É, nossa. Certa vez, li em algum lugar, que infelizmente não me recordo, que a primeira pessoa a ouvir as coisas que falamos somos nós mesmos, a primeira pessoa a ler o que escrevemos somos nós mesmos; portanto, tudo que dizemos, explanamos, escrevemos serve primeiro para nós.

Pois bem, repare. O fato de aceitar, de acolher, de receber uma situação de nossas vidas traz, inevitavelmente, o paralelo com a acomodação, com a zona de conforto, com o comodismo. Até que ponto o ato de aceitar não esconde uma dificuldade em lidar de frente, em olhar no fundo dos olhos de determinada situação? É aquele acolhimento para evitar o desconforto, o desgaste, a animosidade. Quantas vezes já tivemos conversas internas alegando aceitar uma situação, comportamento, postura, para não sairmos do conhecido confortável – que muitas vezes nem é tão confortável assim –, simplesmente para não lidarmos com o transtorno que uma mudança ocasiona.

Avalie como a mudança incomoda! Quando a gente vai fazer uma faxina na casa, arrumar o guarda-roupas, é preciso primeiro transformar tudo num verdadeiro caos! Parece que somente a partir do caos, a gente consegue enxergar o que precisa ser jogado fora, o que vamos guardar, de que forma vamos organizar. A gente ganha uma visão do todo. E isso acontece com a gente também, com a nossa mudança interna. Mudar causa transtornos. E cansa. E dói. E muitas vezes é mais fácil e mais confortável manter tudo como está. Essa é a aceitação que anda de mãos dadas com a acomodação.

Mas, meu querido leitor, em contrapartida, existe a aceitação legítima, consciente, verdadeira. É quando a gente abre mão do controle, e entrega. É quando compreendemos que a única coisa que podemos mudar é a nós mesmos, que a única pessoa que podemos ser responsáveis pelo aprimoramento somos nós mesmos. Não adianta! Você pode desenhar o caminho, argumentar, refutar, ponderar, mostrar com provas cabais… se o outro não estiver disposto a mudar, se o outro não estiver aberto para essa viagem e observação e compromisso internos, são palavras jogadas ao vento.

E, aí sim, o que resta é a aceitação. Entender e compreender que não podemos mudar, nem muito menos controlar o caminhar do outro, o pensar do outro, o decidir do outro. Todos nós temos direito às nossas escolhas e podemos, inclusive, escolher e decidir vestir as roupas da Síndrome de Gabriela e passar por esta existência cantarolando aos quatro ventos “eu nasci assim, eu cresci assim e vou ser sempre assim!”, arcando com todas as consequências, importante lembrar.

Os conflitos, os debates, os desgastes, a raiva, a angústia, a ansiedade têm origens profundas na não-aceitação. Na tentativa exaustiva – e falha – de controle de tudo. Que a gente tenha consciência e capacidade para discernir a acomodação da aceitação. Que possamos perceber a necessidade que a vida nos pede de deixar que as coisas sejam como são e sigam seus próprios caminhos.

Que façamos a nossa parte. A responsabilidade só pode ser com o nosso autoconhecimento e melhoramento.

No mais, entrega, confia, aceita e agradece!

Já nos ensina o bom e velho mantra…

 

– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica.

E-mail: mari.benedito@outlook.com