Coluna de Mariana Benedito – Qual o modelo do sucesso?


“o luxo de uma vida fazendo o que não te faz feliz vale a pena? Qual o valor da conta cobrada pela infelicidade?”


 

Estamos vivendo a era do propósito, de buscar fazer aquilo que faz nosso coração vibrar apesar de todas as consequências, como já diria Osho. É cada vez mais comum a gente ver e ouvir casos de pessoas que abandonaram carreiras consolidadas em multinacionais para abrir um pequeno negócio numa cidade litorânea ou fazer brigadeiro gourmet ou botar em prática aquele sonho de aprender a tocar violão e viver de música.

A gente pode perceber com tudo isso, caro leitor, que está acontecendo um movimento em direção ao rumo do viver bem, com qualidade, mesmo que isso signifique viver com menos. Mas aí eu te pergunto: o luxo derivado de uma vida fazendo o que não te faz feliz vale a pena? Qual o valor da conta cobrada pela infelicidade?

Estamos rompendo padrões. O modelo de sucesso dos nossos avós era uma família que deu certo. Casamento, filhos bem-educados, roupa limpa, comida na mesa. Sucesso era sinônimo de uma casa e uma família nos eixos. E assim esse modelo infalível de sucesso foi passado para nossos pais, mas o mundo já era outro. Nossas mães já saíram de casa para trabalhar, o estresse de dias cheios de atividade começou a chegar à mesa do jantar, as cobranças começaram a acontecer porque aquele modelo exclusivo de pai provedor que trabalha fora e mãe cuidadora que fica em casa já não colava.

Como nossos pais, muitas vezes, não sabiam lidar com todo esse vuco-vuco de frustração, de não conseguir reproduzir o modelo do “até que a morte nos separe” dos nossos avós, eles deslocaram toda essa energia para o trabalho. A geração dos nossos pais foi marcada pelo modelo de sucesso pautado em ser bem-sucedido profissionalmente. Nossos pais cumpriram hora, arregaçaram as mangas, buscaram estabilidade. Fazer concurso era a melhor opção. Sinônimo de sucesso: estabilidade financeira, casa quitada e uma carreira consolidada.

E assim nós fomos criados: nossos pais nos dando ferramentas para uma boa formação com o objetivo de garantir nosso sucesso profissional. Mas aí, entra de novo aquela história de que o mundo não é mais o mesmo. Esse modelo de sucesso baseado na carreira vem deixando muita gente ansiosa, angustiada, com vazio existencial. Trabalha o dia inteiro, preenche a agenda com mil reuniões que não sobra tempo para fazer o que gosta, o que dá prazer. E nisso a vida passa. A gente começa a perceber que a vida não é só pagar boleto e que sucesso profissional não garante felicidade.

O modelo de sucesso da nossa, da minha geração não é mais quantos zeros se tem na conta bancária, quantas escrituras de imóveis estão guardadas na gaveta ou quantos carros se tem na garagem. Sinônimo de sucesso, hoje, é sorriso no rosto, acordar com vontade de fazer o que a gente se propôs a fazer. Sucesso não é mais ter dinheiro sobrando, com saúde e tempo faltando.

Estamos vivendo uma era em que o modelo de sucesso é entender que cada um tem direito de fazer o que quiser. Se alguém quer, e é feliz, assumindo o mais alto cargo de uma multinacional, que seja. Se o outro quer, e é feliz, abrindo uma escolinha de surf na praia, que seja.

O que não á mais cabível é jogar, todos os dias, mais um pouco de vida, tempo e saúde pela janela enquanto almoça uma comida industrializada às 14 horas da tarde, às pressas, porque precisa dar conta das mil atividades do dia.

O que não é mais permitido é suportar infelicidade.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com