COLUNA DE MARIANA BENEDITO – Quem é seu maior juiz?


“sair da zona de conforto é muito desafiador, mas traz grandes e valiosos aprendizados”


Não sou bom o suficiente. Sou desinteressante. Impossível alguém me amar porque eu sou muito complicado. Tudo para mim é mais difícil. A felicidade nunca vai chegar para mim. E blá bláblá guaraná de rosca com enredo de novela das nove! A gente repete essas coisas todas – e até piores – o tempo todo dentro de nossas cabeças, vinte e cinco horas no ar, olhe lá quando não repete nos sonhos também. É como se a gente tivesse um juiz, um carrasco, um algoz, que vive exclusivamente apontando o dedo para tudo que fazemos e ele não fala baixo, não. Grita. Grita alto, bate na mesa e faz o show sem precisar de plateia.

Agora repare, meu caro leitor, como a gente depois se surpreende e fica se perguntando como que a vida real segue o mesmo roteiro dessa que é gritada dentro da nossa cabeça. Não é? É como se a gente buscasse validar o que o juizão fala, dar razão a ele. Mas, meu bem, as coisas que a mente da gente cria, em sua maioria, são falsas. Quando você era pequetitito e brincava com os amiguinhos na rua, certa feita um dos seus melhores amigos escolheu fazer dupla com outra criança ao invés de você, de alguma forma isso foi traduzido como: não sou bom nisso, não tenho valor. Um dia na escola você foi apresentar um trabalho e a professora disse que ele não estava muito bom, então sua mente gritou que você não tinha capacidade para realizar aquele trabalho. Aí quando você cresceu, se apaixonou perdidamente e o alvo de sua paixão te rejeitou, o que foi mais que suficiente para concluir que você não é interessante e que ninguém te quer. Essas são as histórias que a gente vai contando para a gente mesmo, histórias que não são reais, são baseadas na interpretação de uma situação e daí a gente inventa condicionamentos que nos bloqueiam e impossibilitam. E como foi a gente que criou, nós assinamos a autoria dessa coisa toda, essas “verdades” controlam a nossa vida.

A autocrítica é importante, sabe? Ela nos possibilita a prudência, avaliar se estamos mesmo seguindo por um caminho bacana. Mas o autojulgamento, quando nos condiciona, cria uma desordem mental e emocional absurdas, nos levando a viver uma prisão particular todos os dias.

Quando damos ouvidos a essas velhas histórias que repetimos e repetimos e buscamos validar, a gente só se mantém andando em círculos. Perceba que essas histórias foram criadas faz tempo, quantas coisas já foram vividas e experienciadas após? A chance de elas não se aplicarem mais à sua vida hoje são gigantescas! E, mesmo que elas estejam bem enraizadas em sua estrutura emocional, esse hábito de se criticar demais, de fazer julgamentos o tempo todo ao ponto de te paralisar, te impedir de tentar coisas novas, de vivenciar momentos, só cria uma bola de neve ainda maior e impede que você se expanda e saia dessa zona de conforto que já não está mais confortável. Porque sair da zona de conforto é muito desafiador, mas traz grandes e valiosos aprendizados.

É simples parar de acreditar nas velhas histórias que contamos? Não, não é. Mas a caminhada começa com um primeiro passo. Hoje. Agora. Neste momento. Um momento por vez. No momento em que nos flagrarmos ouvindo a voz desse juiz parcial que grita na nossa cabeça, vamos parar e analisar o que está acontecendo, qual a emoção ou sentimento que está sendo manifestada. Medo? Vergonha? Raiva? Tristeza? O que está motivando, impulsionando e alimentando este julgamento?

Não vamos mais permitir que a autocrítica nos impeça de dar mais um passo, de ir além do que ela acha que é seguro.

Esse juiz nem sempre fala a verdade.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica;

E-mail: mari.benedito@outlook.com