Coluna de Mariana Benedito – Sobre estar sozinho…


“A gente vive a partir da ideia de que é preciso encontrar a outra metade da laranja para ser uma laranja digna de frequentar o pomar”


 

Quarta-feira foi dia dos namorados. Eu, aqui nesta coluna, já escrevi sobre os porquês de nos relacionarmos, o fato de que não somos uma ilha e sermos feitos para compartilhar momentos e histórias e sentimentos. Bem como já escrevi também, parafraseando Bauman, sobre os tempos e relações líquidas; o movimento nessa era maluca em que os relacionamentos não duram porque temos infinitas possibilidades e medos e inseguranças, buscando uma perfeição que não existe e daí ficamos sempre achando que o próximo vai nos completar mais, que o recente não vale a pena ser reparado e que vale mais o novo, até que comecem a aparecer as arestas e partirmos para o novo, de novo, neste eterno ciclo vicioso. E seguimos assim: descartando pessoas e relações.

Mas, hoje, na semana em que o relacionar-se está em alta, as demonstrações e exposições de amor estão nos picos de curtidas, eu me pego aqui pensando sobre estar sozinho. Estar solteiro no meio desse turbilhão que, paradoxalmente, se afoga em poças rasas e evita o mergulho profundo, mas também prega que a solteirice é sinal de fraqueza, insucesso e solidão.

A gente vive numa sociedade que se consolidou a partir da ideia de que é preciso encontrar a outra metade da laranja para ser uma laranja digna de frequentar o pomar. Precisamos encontrar a metade que nos falta para nos sentirmos completos. Muitas vezes até caindo na teoria dos opostos que se atraem e se valendo de que o outro precisa ser o meu equilíbrio, fazer o que não faço, ser o meu contraponto numa verdadeira busca por sobrevivência, mais que por amor, diga-se de passagem.

A grande questão, meu querido leitor, é que somos inteiros, mas nos sentimos metade, incompletos, faltosos. E é aí que mora o pulo do gato! A partir do momento em que percebemos que o outro não é remédio nem solução de coisa alguma, perdemos o pavor de ficar sozinhos e vamos aprendendo a conviver melhor com a nossa eterna companhia: nós mesmos.

Eu, sinceramente, acredito que só é possível estabelecer uma relação saudável com dois inteiros, e não duas metades. Mas, para que isso aconteça, é mais que necessário praticar a individualidade, estar sozinho, sentir-se bem sozinho. Quanto mais bem-sucedidos somos na convivência com nós mesmos – harmonizando todas as vozes e possibilidades que a mente grita no meio das cobranças sociais para estar em um relacionamento pelo simples fato de estar –, maior a probabilidade e mais bem preparados estaremos para uma relação afetiva saudável e de qualidade.

A solidão, de forma alguma, é vergonhosa. E nem deveria ser. Estar sozinho nos abre possibilidades de autoconhecimento, de crescimento, de observação. Nos capacita a estabelecer – quando estamos dispostos, importante ressaltar – diálogos internos benéficos, habilidades e percepções que, estando “na distração” de um relacionamento não nos seria possível desenvolver, nos proporciona descobrir forças.

Estar sozinho é, além de tudo, encontrar o equilíbrio, a harmonia, o eixo, a felicidade em nós mesmos. Praticar a individualidade nada tem a ver com egoísmo!

Só estando inteiro sozinho para somar acompanhado.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica.

E-mail: mari.benedito@outlook.com