Coluna de Mariana Benedito – Voou, e agora?


“Existem algumas atitudes que podem auxiliar neste processo. (...) é importante resgatar o que se gosta de fazer”


 Os pais vivem um paradoxo. Por um lado, desejam cuidar, proteger e guardar suas crias; por outro, almejam que eles voem, ganhem o mundo, concretizem os sonhos, andem com as próprias pernas. Repare que dilema da gota serena, não é? Todos nós sabemos que somos cidadãos do mundo – e ele é bem grande! – com possibilidades infinitas de caminhos, escolhas e decisões. Muito embora a grande maioria dos pais tenha este pensamento de criar seus filhos para o mundo, e quando eles finalmente pegam o remo da vida na mão e passam a direcioná-la? O passarinho voou e o ninho ficou vazio.

A Síndrome do Ninho Vazio é uma mistura de tristeza, pesar, solidão que os pais sentem quando os filhos saem de casa e não precisa, necessariamente, ser uma saída para o planeta mais próximo; é referente à simbologia de o filho deixar aquele espaço para morar em outro, seja para ir morar sozinho, fazer faculdade ou porque se casou.

A grande questão desta sensação de vazio é porque, com a saída dos filhos, a rotina da casa se modifica, o ciclo familiar se transforma. A chegada de uma criança mexe com todo o modus operandi da casa, é preciso realizar adaptações, construir um espaço, um quarto. É muito comum as famílias pautarem seus horários com base nos horários dos filhos: a hora da escola, a hora do curso, a data das férias para agendar as viagens. A vida dos pais fica bastante moldada na vida nos filhos, o que é natural. Pense num pedacinho de carne, que não sabe se defender de nada e que precisa, para sobreviver nos primeiros anos de vida, de atenção total e imparcial? Esse elo nunca se rompe.

Sentir falta dos filhos ao saírem de casa é natural. É preciso ficar atento quando a tristeza se prolonga demais e vem acompanhada por uma falta de interesse por outras coisas, falta de objetivos, de planos, sentimento de culpa pela perda da oportunidade de participar mais da vida dos filhos e desenvolver melhor este vínculo. É necessário elaborar essa separação, entender que a saída dos filhos não caracteriza um abandono nem um distanciamento, é o ciclo natural da vida… Assim como os pais fizeram também, lá atrás, quando alçaram os seus próprios voos. Não é mesmo?

Existem algumas atitudes que podem auxiliar neste processo. Já que há agora mais tempo livre – até porque a criação de filhos demanda muita dedicação e tempo – é importante resgatar o que se gosta de fazer. Aqueles planos que ficaram engavetados porque existiam outras prioridades, sabe? Um curso, uma viagem, visitar amigos, familiares; realizá-los agora! Reestruturar a dinâmica e rotina da casa, remodelar o cotidiano, os horários, as refeições são pontos relevantes também.

Muito embora a chamada Síndrome do Ninho Vazio seja desencadeada por um evento específico e considerada uma crise passageira, caso esta sensação de abandono, de tristeza, de angústia persista, é fundamental não relutar em procurar ajuda.

A saída dos filhos de casa abre novos horizontes para os pais. Permite retomar os próprios gostos, tempos, desejos tantas, vezes abdicados em prol do desenvolvimento dos filhos. Possibilita enxergar a vida diferente, com novas cores, sem tantas preocupações, sem tantos afazeres e compromissos.

É hora de aproveitar a vida, com o pensamento de que fez o melhor que podia na educação e criação, deixar que eles caminhem com as próprias pernas, escrevam as próprias histórias. Porque, com certeza, a semente bem plantada, bem regada e bem cuidada, gera lindos frutos.

 

– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com