Desrotulando

 

A vida dá voltas. A todo instante precisamos fazer escolhas. E entre tantas possibilidades escolhemos aquela que, no momento, parece-nos ser, talvez, a mais “justa”, a mais “adequada”, ou a mais “conveniente”. Entretanto, é uma grande bobagem acreditar que se fez, se faz ou se fará a escolha sempre “certa”!

“Ao vencedor, as batatas!” Esse é o foco central do “Humanitismo” do Quincas Borba, o extraordinário personagem do genial Machado de Assis (1839-1908). Oposto ao “Humanismo”, que valoriza o homem, dando-lhe grande destaque a tudo que realiza, o “Humanitismo” é pessimista, ou quem sabe, realista, prático. Vejamos, nas palavras do próprio Quincas Borba: “Supõe-se um campo e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar somente uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutri-se suficientemente e morrerão de inanição. A paz, neste caso, é a destruição; a guerra, é a esperança. Uma das tribos extermina a outra recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se. Ao vencido, o ódio ou compaixão… Ao vencedor, as batatas !”

A vida, nessa perspectiva, é uma luta pela sobrevivência. Daí “nascem” o “vencedor” e o “perdedor”, bem como, entre outras consequências, por exemplo, “nascem” também os rótulos que minam, emperram, constrangem e até destroem nossas relações interpessoais. Ora, a vida é um novelo que deveríamos estar desembaraçando, juntos. No entanto, estúpidos e contrários à simplicidade, nós complicamos, desperdiçamos e rotulamos tudo aquilo que seja contrário ao que pensamos e/ou sentimos.

Assim, não vemos que a vida é assustadora e, simultaneamente, imponderável: podemos engasgar com a nossa saliva, por exemplo, e morrer! Contudo, ainda mais assustador e imponderável é pensar que nossas convicções, decisões ou nossas escolhas foram/são/serão as mais “acertadas”. Bobagem! Sem percebermos (ou mesmo percebendo, o que é muito pior!) incapacitamos nossas mentes e nossos sentimentos porque nos agarramos, absurdamente, aos nossos julgamentos, como se eles fossem algo maior do que realmente são: apenas conceitos!

Galileu Gallilei (1564-1642), físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, há bastante tempo, nos ensinou: “Eppur si muove” (no entanto ela se move), referindo-se ao fato de que a Terra se move em torno do Sol. E se a Terra se move… Porque não os nossos conceitos?! Ora, tudo se move! Especialmente o que pensamos e o que sentimos! Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), por sua vez, proclamou ao final de seu famoso poema “José”: “Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, Sem teogonia, Sem parede nua Para se encostar, Sem cavalo preto Que fuja a galope, Você marcha, José! José, para onde?” Drummond nos ensina que estamos sozinhos e precisamos uns dos outros para mitigar nossa solidão.

Não estamos aqui (e nem sequer sabemos por que estamos aqui) para rotular nada e ninguém! E quando rotulamos, imediatamente, separamos, dividimos, odiamos, complicamos, desgraçamos, estabelecemos fronteiras e desperdiçamos a vida.

Rotular é limitar a inteligência. Rotular é aprisionar o sentimento. Alguém já escreveu um dia que “rótulos foram feitos para produtos, não para pessoas”. Deveríamos, portanto, buscar prioritariamente e incessantemente a liberdade. Aquela liberdade que nos conforta, que nos conecta a nós mesmos, e que pode, enfim, nos tornar pessoas melhores. A liberdade e a felicidade, ainda que efêmeras, podem nos unir. Para alcançarmos essa união e desfrutarmos desses pequenos contentamentos (da liberdade e da felicidade) é bom desrotularmos tudo o que possa adiar esse encontro.

Cláudio Zumaeta – Historiador graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus – BA)  Administrador de Empresas graduado pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL, Salvador – BA). Especialista em História do Brasil (UESC, Ilhéus – BA). Mestrando em História Regional e Local (UNEB Campus V, Santo Antonio de Jesus). Membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL).