Precisamos falar sobre codependência…



Sinceramente? Eu acredito que codependência está dentro daqueles temas cruciais e que precisam ser amplamente divulgados, conversados, estudados, aprofundados. Isso porque a codependência envolve os relacionamentos afetivos, saúde mental, saúde emocional, amor próprio, a capacidade que temos de colocar limites e o entendimento de todo esse processo dentro da gente. Ou seja, queridíssimo leitor, saber sobre codependência é vida! E esse é um tema que eu, particularmente, me interesso, gosto e me identifico bastante; já que como uma codependente em reabilitação, entender como esse movimento surge e de que forma ele está tão intrínseco e conectado com a gente, faz com que a necessidade de falar sobre isso e de levar a maior quantidade de pessoas a se perceberem também nesse movimento – porque ele é mais comum do que podemos imaginar – me auxilie também no meu processo.

Mas, afinal de contas, o que é essa tal de codependência? Repare, o termo, originalmente, foi utilizado para se referir às pessoas ligadas emocionalmente de uma maneira muito forte a uma outra pessoa que tenha algum tipo de dependência, seja ela química por drogas ilícitas ou álcool, seja física ou psicológica, seja compulsiva – sexo, jogos, compras – ou até mesmo pessoas narcisistas. As pessoas com perfil codependente passam a suportar qualquer tipo de comportamento daquele que é dependente e as suas consequências, muitas vezes sem perceber que estão abrindo mão de suas próprias vidas; o que acaba por reforçar a problemática da dependência, já que assumem a responsabilidade por todas as ações e comportamentos patológicos do outro, além de se preocupar excessivamente para controlar essa outra pessoa. Vou dar um exemplo para clarear a ideia: uma esposa que possui um marido dependente de álcool e tolera todas as consequências decorrentes deste comportamento: a irresponsabilidade, as perdas de emprego, a agressividade e se sente profundamente responsável pela melhoria de seu marido, suas ações, desejos e necessidade; colocando, inclusive, a sua felicidade como consequência desta mesma melhoria.

Porém, ao longo do tempo e da evolução das relações afetivas, observou-se que este comportamento codependente ia bem mais além do que somente a relação com alguém que tenha algum tipo de dependência. A codependência passou a ser caracterizada como uma profunda necessidade de controlar, agradar e ajudar o outro, ao mesmo tempo em que nos anulamos. Vive para o outro, abandona a si mesmo. O bem-estar do outro é sempre mais importante que o nosso. Tem um livro chamado Codependência nunca mais, de MelodyBeattie,que descreve dessa forma: “Muitas vezes, pensamos que somos a melhor pessoa do mundo porque agradamos aos outros e não a nós mesmos. Interrompemos nossas atividades para atender ao chamado alheio. Fazemos sempre mais do que os outros nos pedem, e, habilidosamente, antecipamos seus desejos e abrimos mão dos nossos com extrema facilidade. Depois, ficamos chateados quando os outros não fazem o mesmo por nós!”.

E é bem assim mesmo! A gente busca a todo tempo agradar, poupar, proteger, tranquilizar. Fazer o mundo inteiro se sentir bem e confortável o tempo todo, colocando as necessidades do mundo acima das nossas. Nos sentimos responsáveis, compelidos – ou até mesmo forçados – a resolver o problema de outra pessoa e a salvar sua pátria, e sentimos que não somos suficientes quando, obviamente, não resolvemos. Nos contentamos apenas em sermos necessários para os outros.

Mas, você que está aí do outro lado, lendo esta coluna, me diz: eitaaaa, eu acho que sou codependente. E agora, Mari? Calma, monamour! Respira e saiba que estamos juntos e que a coisa não é tão assustadora e nem sem jeito. É um processo de observação, identificação e muito amor por nós mesmos. Compreender que tudo isso se dá, em grande parte, pelo desejo que temos de nos sentirmos amados, aceitos, de sermos úteis. E o processo de cura perpassa pela valorização de nós mesmos, a desenvolver o amor próprio e, principalmente, desenvolver a capacidade de colocar limites e dizer não.  E tenha em mente uma frase que li num texto da Ariana Schlösser – que é uma das maiores disseminadoras do tema da codependência – que diz que ninguém aqui tem diploma de recreadora. Assim, curto e simples.

Codependência é um tema amplo, imenso e que precisaria muito mais de um artigo só para falar sobre. Mas a chave é, de fato, observar a forma que a gente se comporta e se sente nas relações. No mais, seguimos juntos!

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– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com