Âncora e motor de popa


Mariana Benedito: “O medo do abandono, de não viver o sonho de princesa infantil fazem com que muitas mulheres joguem no ralo seu senso de merecimento"


Os relacionamentos são os Enems da nossa vida, meu amado leitor. É a partir da forma que a gente se relaciona que pode dimensionar e identificar coisas importantes: qual a visão que temos de um relacionamento saudável, o que estamos dispostos e abertos a entregar para o outro, o quanto estamos dispostos e abertos a nos vulnerabilizar e mostrar por inteiro, o quanto confiamos em relações saudáveis, o quanto sabemos nos relacionar e como é que a gente aplica tudo isso na vida real.

Eu atendo, majoritariamente, mulheres no meu consultório como Psicoterapeuta e, meu amado ser que lê estas linhas neste exato momento, é gritante a quantidade de relações disfuncionais, deturpadas e abusivas que estão sendo vividas com a roupagem de normalidade.

Comportamentos absolutamente violentos na esfera emocional, mental e a dificuldade das mulheres em se perceberem em relações assim. As histórias que elas contam para si mesmas para se manterem nessas relações são as mais inquietantes que eu ouço na minha prática terapêutica.

Estar no olho do furacão nos impede de enxergar o efeito devastador que ele causa. As relações dos nossos pais, as formas que a gente aprendeu de se relacionar, do que é certo, do que é aceitável moldam a nossa forma de se relacionar na vida adulta e criam verdadeiras amarras que impossibilitam de alçar voo e se libertar. E, por outro lado, ainda existe uma cobrança social de que a mulher só é validada com um homem ao lado, custe o que custar. O medo do julgamento, do abandono, de não viver o sonho de princesa infantil, da rejeição, da não validação fazem com que muitas mulheres joguem no ralo o seu senso de merecimento, percepção de valor e se abandonem em relações codependentes achando que justamente esses relacionamentos irão salvá-las delas mesmas.

Tem relacionamento que é motor de popa e tem relacionamento que é âncora.

Relacionamento motor de popa é aquele que te impulsiona pra frente, que te movimenta, que atrai você para o desenvolvimento pessoal, para o aprimoramento das suas virtudes, qualidades; é o relacionamento que te mobiliza a ser melhor por você, para a outra pessoa e para os dois, te mexe para olhar suas falhas, seus medos, suas dores com o objetivo de cura, não de te menosprezar, diminuir, humilhar.

No relacionamento motor de popa existe abertura para falar sobre suas inseguranças, existe segurança para se mostrar vulnerável e ambos se movimentam para trazer estabilidade e equidade na relação. Leia de novo: os dois, de forma igual. Os dois se movimentam pro mais!

Relacionamento âncora é aquele que te trava, te paralisa, que você não se sente confortável para expressar o que sente e o que deseja, porque tudo vira cobrança e briga. Sua evolução, sua liberdade, sua individualidade incomodam e são, constantemente, apontadas e julgadas. Você é apontada como culpada pelos comportamentos destemperados, “eu perco a cabeça porque você me faz perder”. Não é constância, segurança, estabilidade. É uma montanha-russa! Ora um mar de rosas, ora o inferno na terra.

No relacionamento âncora não existe parceria, existe codependência! As inseguranças são alimentadas e não trabalhadas visando ser curadas.

E o nosso papel no meio disso tudo é perceber quais relações estamos nutrindo, quais formas de se relacionar estamos mantendo em nossas vidas. Como é que está registrado em nosso sistema a maneira “normal” de se relacionar?

Estar atenta aos sinais. Desde sempre. Desde o início. Olhar as coisas sem o princesismo e sem lentes cor-de-rosa.

Fortalecer nosso emocional para que a gente construa e nutra relacionamentos motor de popa, com nós mesmas, antes de mais nada, e com quem a gente decida se relacionar.

Sim, se relacionar é uma escolha que precisa ser codependência com a cabeça.

Mas essa conversa a gente continua em outro artigo…

 

Mariana Benedito – Psicanalista e Psicoterapeuta

Instagram: @maribenedito





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