Você ouve o seu corpo?


Mariana Benedito: “com esse chicotinho no lombo apaziguou o que você estava sentindo ou a coisa virou uma bola de neve?”


 

Estranhou a pergunta, meu caro leitor? É uma coisa que a gente faz tão pouco, mas que é muito importante no processo de acolhimento de nós mesmos. Certo, vamos por partes. Pegue sua xícara de chá aí, sente aqui do meu lado e vamos prosear sobre essas questões.

A gente vive numa época em que a vida externa é altamente propagada. É preciso mostrar, é preciso postar, é preciso estar bem sempre, produzindo sempre, na melhor performance sempre. Temos inúmeros estímulos e cobranças externas que alimentam tudo isso em nós. Passamos a viver no mental, no racional, nas metas, nos objetivos. O que não é ruim, compreenda. Ter planos, querer atingir um objetivo e chegar a um patamar profissional e pessoal são importantíssimos para o nosso desenvolvimento; a grande questão é quando nos distanciamos do sentir.

Sentir significa estar presente, acolher e ficar com o que se passa por dentro. Seja lá o que for. Sentir significa suportar. Suportar o incômodo, o desconforto, a vontade de querer fugir, a dor, o vazio. A partir desse ponto, sentir significa, também, dar abertura para acolher esses desconfortos. É ficar com a gente, é se fazer companhia e se dar colo.

Observe, meu amado ser que me lê aí do outro lado, quantas vezes você sentiu medo, insegurança, tristeza, raiva e a primeira coisa que fez foi se punir por estar sentindo? Repetiu para você mesmo que não podia estar sentindo o que estava sentindo? Que é coisa de gente fraca e imatura sentir? Que você precisa é ocupar a cabeça com trabalho, para não ficar pensando nessas coisas? Imagino que isso tenha acontecido algumas muitas vezes, não é?

Agora repare, se tratar com esse peso, com essa cobrança, com esse chicotinho no lombo apaziguou o que você estava sentindo ou a coisa virou uma bola de neve? Pois é, está justamente aí a diferença de a gente se acolher no meio disso tudo. Vai resolver num passe de mágica? Não, não vai! Mas a maneira como a gente vai seguindo essa jornada fica muito mais leve. Sentir, acolher, ficar com o que se passa. Se fazer companhia enquanto sente. Conversar consigo mesmo e se fazer presente, entendendo que estamos todos numa caminhada e não sabemos tudo e nem temos todas as respostas e nem precisamos ter. Com calma e compaixão, por nós mesmos, acima de tudo.

E aí, meu amado leitor, entra a pergunta que intitula esta coluna. Ouvir o corpo, trazer para o sentir. Sentir no corpo essa emoção, num oferecimento de Monange – quem não se lembra de Xuxa na propaganda? Mas é sério, meu caro, abrir espaço para identificar no nosso corpo o que estamos sentindo. E esse movimento é plenamente cercado e envolto de presença, de presente. O nosso corpo sempre diz quando nos sentimos desconfortáveis, incomodados, com medo, com raiva, alegres, entusiasmados. É o nosso corpo que dita, fielmente, o que sentimos!

E estar em contato com o nosso corpo, observando quais as sensações manifestadas por ele, nos permite ficar. Suportar. Sustentar. Acolher no corpo nos traz contato real com nós mesmos, nos possibilita conversar com a gente de uma maneira mais compassiva, mais amorosa.

É entender que sentir o que sentimos é normal, está tudo certo! É entender que não precisamos mais de tanta cobrança. O que a gente precisa é fazer o caminho inverso: nos acolher, nos dar colo, olhar nos nossos olhos e enxergar que existe um ser humano falho, que vai errar muito ainda nessa vida, mas segue fazendo o que precisa ser feito para construir valores e deixar um legado positivo por onde passa.

Ouça o seu corpo, dê atenção ao que ele diz.

Se acolha. Estamos juntos na mesma jornada.

 

– Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.b[email protected]