A doida

 

Recebia o pão sem agradecer, como se fosse comprado. Saía andando depressa, em sua caminhada de doida, seguida por um cachorro pulguento. O dono da padaria achava bom, porque ela era suja, um vestido fedendo, os cabelos amontoados, como um ninho de pássaro. Ele a olhava sumindo no passeio e dizia com pena: “Coitada!” A doida caminhava ligeiro, embora não fosse a lugar nenhum. Sem casa, sem parente nem aderente, ela só tinha uma coisa: pressa no andar. Se apegava à rua, era o caminho que devia percorrer, como cada um se apega à vida, a vida que se deve viver. Os pés imundos no chão, sem ter onde descansá-los. O cachorro a seguia um pouco atrás. Mais tarde parou cansada e sentou-se debaixo de uma marquise. O cachorro, solidário, deitou-se ao seu lado. Ela resmungava, de vez em quando, umas duas palavras: “Num vou não!” Aos 14 anos, a mãe a empurrara ao cabaré de Silmara: “Vai ganhar dinheiro, besta!” E ela, em choro, apanhando da mãe: “Num vou não!”  Apanhava até ir. Na volta, a mãe tomava-lhe o dinheiro: “Num te disse que tu ia ganhar!” Na noite seguinte tornaria a bater-lhe até ela ir se deitar com os homens. Sustentava a mãe e os dois irmãos menores assim. Magoada, destruída, fechou-se num isolamento de todos. Obedecia às ordens da mãe e deixava-se possuir pelos homens, mas não falava com ninguém. Criou um mundo próprio, dentro de si, onde passou a morar. Os anos e os bregas foram passando em sua vida. Depois adoecera e nenhuma Casa quis mais aceitá-la. Ficou andando  apressada pela rua. Sentou-se cansada debaixo da marquise. Arquejava e sentia febre da pneumonia. Deitou-se no chão, encostou a cabeça no batente, como travesseiro, e morreu..