COLUNA DE MARIANA BENEDITO – A ferrugem da vergonha


“Ela nos impede de procurar ajudar, de pedir um colo, um ombro, um ouvido amigo”


Vergonha é um bichinho que a gente não mostra, não fala sobre, não deixa à mostra. E quando me refiro a vergonha, é aquele sentimento de insegurança causado pelo medo do ridículo e do julgamento dos outros, medo da humilhação, de parecer inferior. É algo bem profundo. Escondidinho nas profundezas do mar sem fim de nós mesmos.

A vergonha é silenciosa e pode estar relacionada a qualquer coisa. A forma como expressamos nossa sexualidade – porque se você quer ver pessoas desconcertadas, comece a falar sobre sexo –, nossos corpos, nossos pensamentos mais secretos, nossos vícios, nossos medos e pode se manifestar das mais variadas formas. Ela não aparece em um letreiro luminoso, piscando em neon. Não mesmo! A vergonha vai chegando, devagarinho, através do sentimento de inadequação, de que a gente não tem valor, de que não merece o que tem – ou o que deseja.

Todos nós, na face desse planeta chamado Terra, em algum momento internalizamos a ideia, lá no fundinho da gaveta, de que somos defeituosos, faltosos, errados, insuficientes. Os bebês não nascem sentindo vergonha. Eles choram quando estão com fome, querem a mãe e abrem o berreiro quando ela não vem imediatamente; a vergonha não é uma emoção nata e natural do ser humano, a gente fabrica. É como se fosse uma punição porque a gente não agiu como deveria, não sentiu o que deveria, não se encaixou onde deveria, não se adequou como deveria.

Agora repare, acompanhe meu raciocínio, amado leitor: se a gente sente vergonha por conta dos pensamentos e ações que a gente guarda a sete chaves e não mostra para ninguém, não tem como saber quais são os pensamentos e ações que as pessoas também escondem. É aquela velha história, não somos os únicos e a Terra não gira em torno do nosso umbigo; bem como a gente sempre compara o nosso bastidor, onde fica a bagunça, as estruturas, os cabos de aço que nos alicerçam com o palco do outro, onde se mostra o brilho, o espetáculo, a ordem. Daí nos mantemos cada vez mais escondidos…

A nossa vergonha acredita ser impossível que alguém nos elogie, veja valor em nós, nos ame. Ela nos impede de procurar ajudar, de pedir um colo, um ombro, um ouvido amigo. Nos paralisa, nos mantém presos no mesmo lugar, sem reação, sem atitude, girando e fazendo voltas em torno da mesma velha conversa de botas batidas, parafraseando Los Hermanos.

A vergonha é uma fuga, um refúgio, aquilo que temos vontade de fazer – ou fazemos – quando ninguém está por perto e que mantemos trancado, escondido, longe das vistas do mundo, porque temos medo do que vão pensar e achar e dizer, se souberem disso. Mas, eu te digo, querido leitor, só há uma forma de diminuir o poder que a vergonha tem sobre nós: admitindo que ela existe e que não estamos sozinhos nem somos os únicos, já diria a propaganda do Monange, a sentir na pele essa emoção.

Reconhecer a vergonha aí dentro, dar nome a ela, dizer em voz alta, mesmo que seja assustador e desconfortável.

Jogar luz sobre ela.

Só assim podemos liberá-la.

 

* Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica; Consultora de Projetos da AM3–Consultoria e Assessoria.

E-mail: mari.benedito@outlook.com