Coluna de Mariana Benedito – Escravidão digital


“A gente se conecta com quem está longe. E se distancia de quem está perto”


Pesado esse título, não é? Mas é, de fato, o que vem acontecendo, querido leitor. Eu não sei a faixa etária em que você se encontra, mas eu creio que isso nem tenha tanta importância assim, se você estiver inserido nesse contexto de WhatsApp, Facebook, Instagram e companhia limitada.

Um movimento que eu percebi acontecendo comigo – e pude trocar figurinhas com amigos e pessoas próximas que também se perceberam nessa onda – foi o de estar emocional e mentalmente dependente do aparelho celular e das redes sociais. E olhe que nem vou entrar na discussão de que o celular hoje é um apêndice da gente: carregamos agenda, acesso a bancos, notas com lembretes, compromissos, contatos tudo no aparelhinho. É uma mão na roda! O negócio começa a ficar estranho quando a gente não consegue mais viver – de forma tranquila – sem o celular ou sem a interação decorrente dele.

As redes sociais são maravilhosas! A gente se conecta, troca informações, encontra pessoas que pensam de forma parecida com a gente, lê coisas bem bacanas e interessantes que os amigos e páginas e perfis postam e compartilham, assiste da plateia de casa e comendo pipoca os passeios, rotina e viagens dos amigos, mantém contato com quem está longe. E se distancia de quem está perto. Louco, não acha? Quantas vezes já estivemos em locais com amigos, familiares e a gente nem sequer recorda o que aconteceu, o que foi conversado, compartilhado simplesmente porque a gente não estava lá. O corpo estava. A cabeça, olhos e atenção estavam no celular. Deixamos de aproveitar momentos reais para dar mais importância aos momentos virtuais; a gente reclama da falta de tempo e da correria do cotidiano para juntar um grupo de amigos e, quando consegue juntar, é cada um no seu mundinho virtual trocando mensagens em outros grupos de WhatsApp reclamando que não consegue se encontrar. Gente! Vamos levantar a plaquinha: Pare. Apenas pare.

E isso vale também para atividades corriqueiras, cotidianas. Eu não tenho dedo suficiente que dê para contar as vezes que eu deixei de realizar uma atividade, sem parar para responder mensagens do WhatsApp, do direct… e mensagens que poderiam PERFEITAMENTE ser respondidas depois sem o menor problema. Cria na gente uma ansiedade, uma angústia, um bloqueio criativo, um comichão, que a gente não consegue manter o foco no que tem para fazer enquanto estiver piscando aquela notificação na tela do celular. É uma cobrança insana por responder às mensagens na hora exata que chegam – mesmo que você não possa responder naquele momento ou não seja o caso de tirar o pai da forca –, por estar conectado o tempo todo, por saber de todas as conversas dos quinhentos grupos, por postar as melhores fotos com as melhores legendas e ter cada vez mais likes e comentários e seguidores.

Você consegue perceber a dependência disso tudo? Deixamos de viver momentos reais, deixamos de compartilhar a presença de pessoas que a gente gosta, deixamos de desempenhar com foco nosso trabalho, deixamos de fazer coisas que gostamos e nos acrescentam porque estamos subindo o feed infinito do Instagram e Facebook, comparando nossa falta de foco com a super produtividade daquele amigo que atinge mensalmente as metas no trabalho e que postou uma foto ao receber um prêmio da empresa e que, por sua vez, compara sua falta de tempo para fazer uma atividade física com o outro amigo que acaba de fazer um story saindo da academia no maior estilo “tá pago!”

E nisso a vida passa!

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Não é nem oito nem oitenta. A ideia não é sair apagando as contas do Instagram, do Facebook, removendo o numero do WhatsApp e jogar o telefone no Rio Cachoeira. Longe disso! A gente só não pode deixar que tudo isso nos engula, nos governe, nos tire das prioridades.

Quem controla quem?

 

* – Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica.

E-mail: mari.benedito@outlook.com