COLUNA DE MARIANA BENEDITO – Ser ou dizer que é?


“Quem se reconhece um bom profissional, por exemplo, não sente a necessidade de repetir isso o tempo inteiro”


O que vale mais, amado leitor?

Numa era em que a exposição é tão valorizada, venerada, premiada, quais princípios estamos priorizando? E eu não estou nem entrando no âmbito do ser x ter, porque aí a discussão já seria outra; mas, acompanhe meu raciocínio, quando temos a real convicção de que somos determinada coisa, precisamos mostrar e provar e gritar aos quatro ventos que somos essa tal coisa?

Repare. Recentemente, eu vi no Instagram uma pequena polêmica em torno de uma moça que realizou uma cerimônia de casamento com ela mesma. Sim, você leu certinho! Espelhinhos foram distribuídos aos convidados e a ideia era a valorização do amor próprio, do autocuidado e a importância de não colocar nossa felicidade nas mãos de ninguém e assumir este compromisso, antes de tudo, com nós mesmos. O objetivo foi celebrar a autoaceitação dessa mulher e relembrá-la de estar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, com ela mesma. A nunca se abandonar.

A motivação para o “casamento” é bem nobre. Confesso. É mais que importante praticar – de verdade – o amor por nós mesmos e estar atento para que a gente não caia naquela já conhecida cilada de colocar todo mundo e o mundo todo acima e à nossa frente, esquecendo de nos priorizar. Não era amor, era cilada, não é mesmo? Válido! Mas, meu querido leitor, ao ver esse exemplo, só me remeti à frase: quem é rei não precisa dizer que é majestade.

A autoconfiança é silenciosa. Quem se reconhece um bom profissional, por exemplo, não sente a necessidade de ficar repetindo isso o tempo inteiro para legitimar essa qualidade. A pessoa é. E seus feitos e atos profissionais falam por si. Não existe o desejo de mostrar ou provar nada para ninguém, porque ela já tem convicção desta qualidade. Essa angústia que sentimos em precisar da aceitação, aprovação e reconhecimento do outro nada mais é do que fragilidades e inseguranças que carregamos dentro de nós.

É aquela velha história de que somos treinados pelos ouvidos e pela repetição. Ao ficar repetindo nossos feitos e glórias e louros o tempo inteiro, estamos tentando convencer a nós mesmos de que somos tudo aquilo que dizemos. E aí repetimos que nem papagaio para que, por osmose, a gente também acredite naquilo.

Fazer uma programação mental positiva, com afirmações de autoestima e autoamor é muito benéfico. Fazer a pose da Mulher Maravilha por cinco minutos em frente ao espelho também é, dá uma sensação de poder danada! Acredite! Mas a grande questão – e a reflexão que trago – é qual o limiar entre ser, sabendo que é, verdadeiramente, e precisar expor?

Que lacuna e carência se escondem atrás da construção desse ser ideal que tanto proclamamos que somos?

E até que ponto esse ideal é real? Até que ponto o somos?

 

* – Psicanalista em formação; MBA Executivo em Negócios; Pós-Graduada em Administração Mercadológica.

E-mail: mari.benedito@outlook.com